“Meu amuleto é o esforço”, diz o chato aplicado. “Meu amuleto é a certeza”, diz o chato confiante. “Meu amuleto é o conhecimento”, diz o chato estudioso. Por que chatos? Porque não respeitam a natureza da palavra. A essência do amuleto é proteger a sorte, guiar o destino, resolver quando tudo parece dar errado. Magia, crença, emoção. É a disciplina de guardar por décadas uma cueca para ser usada só em momentos decisivos – para não queimar pólvora em chimango. Sérgio acreditava nisso. Elisandra também.
– Joguei fora.
– Como assim, jogou fora? Era minha, não sua.
– Estava um lixo. Podre. Uma vergonha.
– Você não tinha esse direito.
– Vamos discutir direitos? Jura?
– Não mude de assunto. Você abriu a gaveta, avançou em minha intimidade, agiu pelas minhas costas. Depois dessa, eu não sei se sobreviveremos a isso juntos.
– Estou fazendo um favor. Você verá que o resultado não depende dela e a vida seguirá mais decente.
– Quero só ver. Prepara os advogados. Tô saindo.
Elisandra jogava com as estatísticas. O Japão jamais passara da etapa do mata-mata na Copa do Mundo. Também por raras vezes venceu o Brasil no futebol – e havia vencido um amistoso recentemente. O raio não cai duas vezes na mesma goleira. Ainda assim esteve angustiada até os acréscimos do jogo. Quando Sérgio voltou, já chegou avisando: ela teve mais sorte do que juízo. Agora, seria aquela a nova cueca da sorte.
– Imaginei. Por isso botei uma nova no alto da pilha.
– Um dia sua confiança vai por tudo a perder, mulher!
Meu amuleto é a malandragem, pensa a prevenida, enquanto veste suas calcinhas da sorte.

