Minha nora, biomédica, acaba de participar de uma seleção rigorosíssima e habilitou-se para o programa UFCSPA Embarcada na Amazônia. Para quem não sabe, é um projeto para atuar dentro de um navio hospital da Marinha do Brasil que atende as comunidades mais remotas da calha norte do Rio Negro. Voltou com muitas histórias e uma experiência de vida inigualável.
Desde que nos contou que iria, saltou-me na memória o Projeto Rondon, nascido em 1967. Destinado a levar estrutura multidisciplinar para o chamado Brasil Profundo, esteve ativo até 1989 e, em 2000, voltou ao radar das autoridades, propiciando a retomada das atividades em 2005. O ponto de contato, no entanto, é parcial: UFCSPA Embarcada se concentra em assistência em saúde, utilizando para tal uma estrutura hospitalar flutuante capaz de conduzir os profissionais até comunidades distantes e ribeirinhas.
Depois de cumprirem as etapas preparatórias, vieram os dezesseis dias mais intensos de suas vidas: levar atendimento médico abrangente e especializado para uma população distante de toda a rede de saúde que, à nossa volta, parece corriqueira – dentistas, laboratórios, centros de imagem, enfermarias, médicos generalistas e especialistas etc. Uma quebra de rotina de intensidade máxima pois o navio foi, num só tempo, casa e trabalho – num trocadilho inevitável, uma experiência de imersão.
Contou-nos sobre o céu mais estrelado que conhecera – com direito a eclipse, lua de sangue e chuva de meteoros –, sobre a proximidade com a vida selvagem, sobre modos e cultura locais. Falou de como a necessidade de atendimento imediato é capaz de quebrar qualquer tipo de receio ou resistência – o que precisava ser feito deveria ser feito –, de famílias que aguardavam ansiosas a chegada da estrutura, do contato inevitável com garimpo ilegal e o tráfico – nada que lá existe desaparece com a chegada do navio. Por isso, inclusive, há estrutura armada em maior ou menor contingente acompanhando cada ação.
Neste domingo, recebemos cada palavra com pleno orgulho. Espero que suas anotações de viagem, talvez junto com os registros dos demais envolvidos, componham um registro formal. Porém, de modo diferente dos inevitáveis – ainda que necessários – relatórios de trabalho. Principalmente por detalhes aparentemente menores, bem aquilo que mais me interessa. Como, por exemplo, a decisão de fazerem uma mesma tatuagem em todos celebrando a experiência. Gravar na pele tudo aquilo que permanecerá para sempre na memória e na alma.
Parapenz, Natasha!

