A baliza como balizador

Dentre todas as etapas para a aprovação no exame prático de habilitação para novos motoristas, a prova de baliza é (era?) a campeã de reprovações e, paradoxalmente, a mais fácil, segura e treinável. Por isso sou contra sua retirada da prova e espero estacionar argumentos nesta vaga apertada com movimentos de lógica. Para mim, a autoridade de trânsito pensa em facilitar e erra a direção.

Começo com uma comparação esportiva: o que é mais fácil, jogar basquete ou fazer lances livres? Para um, desenvolverei habilidades como condução de bola, drible, deslocamentos, passes, saltos, visão de jogo, movimentos defensivos, cumprimento das regras, resistência física e… arremesso em cesta parado, em movimento, saltando, atrás da linha dos três pontos e em lances livres. Para estes últimos, ninguém pode me atrapalhar, a distância é sempre a mesma e estou parado. Convertendo a lógica para o trânsito, estacionar no exame de baliza é muitíssimo menos complexo do que dirigir.

Porém, de volta à quadra, praticar lances livres é parte fundamental do aprendizado do basquete não apenas porque haverá pontos em jogo, mas principalmente por entregar confiança nos movimentos básicos, equilíbrio e correção do gesto. Do mesmo modo, estacionar o carro entre duas balizas é a forma mais adequada de consolidar o comportamento do carro em deslocamentos em marcha a ré, lidar com a ansiedade de performance sem riscos de danificar o carro ou à vida de terceiros.

Sobre o último ponto, para treinar baliza, basta uma rua deserta, duas taquaras e um cúmplice que evite se colocar no caminho. Dá para ficar uma tarde inteira repetindo sem que haja grande perigo. Isso é contra a lei? Bom, a lei recém modificada, ao que parece, está mais interessada em nos entregar motoristas incapazes de cumprir fundamentos do que conduzir ao domínio de fundamentos. Em outras palavras, não é sobre estacionar, é sobre saber o que se está fazendo no controle de uma tonelada e meia de metal e força.

Falo agora com meus pares, que estão em posição de comando social: chega de tratar as novas gerações como um grupo de incapazes. Chega de afrouxar requisitos em nome de aprovação. Chega de normalizar a ausência de esforço. A título de piada, a única vantagem nesta nova lei será um futuro sem a necessidade de vagas para idosos à beira das calçadas – ninguém com menos de sessenta anos saberá colocar o carro ali, procurando vagas oblíquas ou perpendiculares. Ou um motorista de aplicativo. Ou seja, o novo balizador de autonomia parece ser a capacidade de contratar quem faça o que deveríamos fazer com nossas próprias mãos ao volante.

ATENÇÃO: inscrições abertas para março!

Recordando: escrever é o melhor exercício para o cérebro. Escrever na Santa Sede também fortalece o coração.

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4 comentários em “A baliza como balizador”

  1. O novo padre aqui da minha cidade chegou e a primeira coisa que ele achou é que o prefeito deveria impedir o trânsito de passar em frente à igreja (Morro dos três Templos, onde estão duas das nossas maiores escolas, instaladas ali há uns cem anos, uma pública e outra particular e a igreja matriz). O prefeito mudou o trânsito da cidade inteira, acabando com a fluidez de sentido único, nos trazendo de volta à 1980. Todo mundo pode ir para qualquer lado, atravessando as pistas e tudo certo, não há nenhuma placa indicando proibição, na cidade toda. Venha e veja com os próprios olhos. Todo estudo de trânsito milionário feito alguns anos antes, as modificações, a educação de trânsito, tudo por água abaixo porque o padre novo chegou na cidade e não quer mais tantos carros passando na frente da igreja, a não ser os carros dos que vão na igreja ou estão indo e vindo nas escolas. Não houve uma contagem de carros para saber se são muitos outros que desviam o trânsito por ali. Não houve estudo de alternativas. E ele mesmo não pediu para mudar o trânsito todo, mas isso acabou acontecendo, por conta do pedido dele.
    Por enquanto, nenhuma batida grave. A velocidade máxima permitida pelo nosso trânsito está nos 20 km por hora. Qualquer coisa mais que isso é garantia de um acidente, então todos nos adaptamos. Há um sistema de prisão panóptica (vide Foucault em ‘Vigiar e Punir’) perfeitamente instalado. Toda uma população se vigia mutuamente. Ninguém pode, por exemplo, gostar de carnaval, sob pena de ser transformado em uma aberração pública, ser demitido, reprovado e isolado socialmente.
    As leis, e os costumes, nos novos tempos, tem sido feitas assim. Um padre (poderia ser um cronista) simpático à comunidade, acha que a coisa deveria ser diferente. Alguém protocola um projeto. Aprova-se o projeto na mesma semana. Ninguém reclama, nem mesmo dos custos. Todos se adaptam. Se for lei municipal, é feito um pedido para sessão extraordinária, aprova-se no mesmo dia, para atender o desejo urgente e ardente do padre, para que ele possa dizer na missa (que de repente todos passaram a frequentar, dá um certo status – eventualmente o padre te reconhece e fala teu nome no microfone) que esse prefeito e esses vereadores sim! Antigamente uma lei para ser aprovada passaria por discussão em órgãos de classe, debates públicos, amplo estudo, no mínimo uma conversa com especialistas. A própria reforma tributária foi aprovada meio que sem falar com os contadores, que teriam dado soluções ultra melhores e práticas.
    Mas quero opinar sobre as tuas balizas balizadoras. Desde que se tornou obrigatório fazer autoescola, que se sabe que a prova mais importante é a de baliza, as autoescolas passaram a cobrar uma fortuna para ensinar seus alunos a: fazerem baliza. Não necessariamente aprender a dirigir. As aulas de direção podem ser feitas à noite, em horário ou ruas sem movimento. É levar o carro para frente sem invadir outra pista e pronto. Colocar o cinto, ajustar os espelhos, engatar a primeira marcha, tirar o pé da embreagem e pisar de leve no acelerador. Parar na faixa de pedestres. Isso, que qualquer um poderia ensinar a qualquer um, mais que agora já não pode, encareceu enormemente o custo de se ter uma carteira. Então, milhares de jovens que poderiam dirigir, não podem, porque não tem dinheiro para custear a carteira – a não ser que os pais paguem por isso, ou o governo custeie (é uma ideia). Talvez isso os impeça de trabalhar, aceitar empregos em outras cidades, limita-os até mesmo para prestar socorro às suas famílias. Viram dependentes de um pai ou mãe ou avô ou vizinho que dirija e os leve e busque, ou jamais sairão do ônibus da empresa que busca na porta de casa, ou do transporte público com seus horários limitados (ao menos nas cidades menores), porque não tem carteira. Talvez não frequentem a faculdade, porque não há ônibus. Não é a minha ou tua realidade, dos nossos leitores que pagam aulas para aprender a escrever uma simples frase, diminuir a quantidade de adjetivos ou conjugar os verbos corretamente. De todo modo, tenho a dizer que eu sou perfeitamente a favor de acabarem com a prova de baliza. Até porque, fazer baliza num trânsito complicado como o nosso, atrapalha o trânsito e acaba com a fluidez. E eu quero fluidez, mais jovens dirigindo para os velhos e menos velhos dirigindo para os jovens. Não importa tanto o que os outros querem, certo? Importa, pra você, manifestar indignação de uma forma melhor. Usar os pensamentos da moda “Chega de frouxar requisitos em nome de aprovação.” “Chega de normalizar a ausência de esforço.” Tudo porcaria de repetição de frases de Instagram. Tem uma escrita redonda, tem metáforas, tem bastante coisa boa, ali no começo. Mas não tem pensamento profundo. Isso que me desanima na crônica: ensina as pessoas a serem papagaios. Não a estudar profundamente um tema, antes de se manifestar. E contudo, foi aqui, exatamente aqui, que eu aprendi isso: que estava me manifestando sem antes pensar, me sujeitando ao teu deboche semanal. Agora penso um pouco mais e, contudo, ainda estamos na mesma aula inicial, onde o professor ensina: pare de pensar tanto e escreva com produtividade, sinônimo de esforço. Bem vindo ao novo mundo: o da ‘inteligência’ artificial.

    1. Saudade de você por aqui, Auri.
      No seu comentário, não estamos falando da mesma coisa, apenas. Sou muito crítico das alterações recentes que criaram um cartel de autoescolas a abusarem dos preços. Apenas sustento tudo o que eu disse e, se você viu ali no meio, há a ressalva das taquaras para servir de alternativa de baixo custo.
      Sobre o outro tema, perdão, minhas fontes não são as postagens de Instagram. E se você não vê uma geração com baixa tolerância à frustração e imaginando que as conquistas virão sem esforço e percurso, então tá. Eu vejo e cuidei (cuido) disso em casa.
      Muito obrigado!

  2. Dirceo Stona

    Gostei. Tanto um como outro me fez lembrar – leis de trânsitos são problemas para certos motoristas-. Mas não é de hoje.
    Em 1942, São Sepé tinha somente duas pessoas com carro. Uma morava em bairro e outro centro da cidade. No domingo à tarde os dois resolveram passear na praça, desfilando seu poder econômico representado por ter um carro – quase como fosse ter um jatinho hoje –
    Na esquina da praça das Mercês, por não saberem de quem era preferência, bateram-se.
    – Poxa, o que você está fazendo aqui se moras em outro lugar-? Perguntou o mais rico.
    Tal acidente ficou na história, não pelo imprevisto em si, mas pelo prefeito estabelecer novas leis proibindo que os doí transitassem no mesmo dia.

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