Rufar dos Tambores

Número 374

ESSÊNCIA

Para o Irmão Arnaldo

(1913-2010)

É lendária a história na qual subimos, após muito sacrifício, até a mais alta das montanhas para encontrar o homem sábio. Com ele, estariam guardados os segredos do sucesso, da felicidade, do amor, da paz, da harmonia, enfim, da vida em sua plenitude. No entanto, cada um que alcança tal cume, depara-se com alguém em vestes simples, sem domínios ou bens. Nem servos, luxo, conforto, tecnologia, badalação. Estranhamente, são reconhecidos no homem atributos que construíram sua lenda. E, apenas então, defrontados com o óbvio, todos compreendemos a diferença entre o aparente e o essencial.

Nunca fui à montanha. Quis o destino que a montanha viesse até mim, oferecendo o privilégio de conviver, desde a mais tenra infância, com um homem sábio de carne e osso, mas do qual emanam verdadeiras lendas. Estou falando do Irmão Arnaldo Isidoro, ou, para mim, apenas tio Irmão, falecido dia dez de junho aos noventa e seis anos. Em seus oitenta anos de vida religiosa, recém comemorados em singela missa na Casa de Saúde dos Irmãos Lassalistas, Irmão Arnaldo guiou a vida de todos os que estiveram consigo, compartilhando sem medir sacrifícios ‒ e sem auferir proveito pessoal ‒ o divino dom da sabedoria.

É fácil imaginar que, caso optasse pelo caminho do empreendedorismo, o Irmão Arnaldo, José Fridolino Schmitz de nascimento, teria se tornado um homem rico. Quem sabe riquíssimo. Sua capacidade administrativa esteve comprovada em toda biografia, seja em Minas Gerais, São Paulo ou no Rio Grande natal. Por exemplo, nos muitos anos na direção do Pão dos Pobres de Santo Antônio, instituição responsável pelo acolhimento e educação de milhares de meninos órfãos e carentes em Porto Alegre. Ciente de que os atributos do espírito sucumbem diante do frio, da fome e do abandono, dedicou sua energia para garantir o conforto e a educação das crianças, formando um legado de riqueza que certamente não caberia em medidas de ouro.

Também a política deixou de contar com alguém de carisma e capacidade de liderança incontestável. Exilado das funções públicas pela eleição do caminho católico, nem assim Irmão Arnaldo deixou de circular em todas as esferas de influência. Na Casa Lassalista, foi Provincial por duas oportunidades. Durante sua rotina, recebia e era recebido por governadores, prefeitos, deputados e senadores sem visar promoção pessoal, apenas em pleitos humanitários. Mesmo assim, ou talvez por isso, recebeu diversas homenagens, com destaque para a Medalha Cidade de Porto Alegre, em 1985; Cidadão Emérito de Porto Alegre, em 1988, e Professor Emérito, no mesmo ano.

Se a constituição de família estivesse no destino do tio Irmão, dou o testemunho de que ele seria um pai inigualável. Primeiro, pelo amparo que sempre ofereceu aos irmãos e sobrinhos, assumindo com dedicação paternal a orientação de todos nós. Mas, principalmente, pela vida de educador, assumida desde os tempos de juventude, na sala de aula, até o último dia dedicado ao orfanato. Incontáveis consideram-se como sendo seus filhos.

Estamos, por fim, todos órfãos da companhia do Irmão Arnaldo, mas carregaremos adiante seu legado e seu amor. Foi um homem que partiu do mesmo modo como viveu, sem riqueza ou poder. Em suas últimas palavras, a derradeira e sublime lição: olhava em nossos olhos e dizia “muito obrigado”. Sim, Deus sabe que apenas agradecia aquele a quem devemos tanto. Alguém que nos poupou até mesmo do esforço de subir a mais alta das montanhas em busca da sabedoria em sua mais pura essência.


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