Número 350

TRIBUTO AOS PESSIMISTAS DE PLANTÃO

Coisa irritante é essa época do ano, não acham? Parece que todo mundo resolveu ficar feliz, com uma alegria sem motivo ou, pior, movida apenas pela convenção do calendário. Será que esse coro dos contentes não vê que dezembro e agosto são iguais? E maio e setembro e fevereiro e julho… Só porque resolveram virar o ano nesse período, ficam impondo bem-dizeres. Quem aguenta?

Aliás, espero que 2009 vá embora de uma vez por todas. Êta aninho sem graça! Quando choveu, molhou tudo. Mas não ficou nisso: alagou. Em algumas regiões, consta que foi o ano mais chuvoso em cem anos. Até parece que os outros 99 deram mole para nós: esses caras só olham o lado positivo da estatística! E o sol, então? A camada de ozônio anda uma peneira velha. Com isso, ficou impossível ir para a rua de dia. Nem durante a chuva, pois as nuvens nos molham, mas não barram os raios daqueles raios UV. Saiamos à noite para sermos assaltados!

Dezembro vira uma verdadeira gincana. Não bastasse tudo que se tem para fazer normalmente, ainda tem o Natal. E as mensagens de Natal. E os espiritualizados lembrando todo mundo que as Festas existem para elevar o pensamento. E os lojistas lembrando que o crediário existe para elevar nosso poder de compra. E as financeiras lembrando que os juros existem para elevar seus lucros. E os filhos, netos e sobrinhos lembrando que os presentes simbólicos (maneira educada de dizer baratinhos) existem para elevar nossas culpas. E quando o presente é caro, dizem que também é por culpa da culpa!

É nessa época, também, que tiramos férias. Coisa horrível! Férias é igual a domingo: só existe para lembrar que dura pouco e no outro dia é segunda-feira. Quem vai para o Litoral, fica com inveja dos que estão na Serra. Quem está na Serra, sente falta de um banho de mar. Quem fica na cidade não tem o que fazer, nem amigos para conversar. E, se resolve dar um pulinho na praia no final de semana, fica parado na estrada reclamando que os outros tiveram a mesma ideia. Para viagens, caos nos aeroportos. Roteiros alternativos são sinônimos de mosquitos e banho frio. Aí, o melhor continua sendo ficar em casa: só assim se pode reclamar o ano inteiro que não se fez nada durante as férias.

Quem acha que está ruim, esqueceu dos otimistas. Os queridos que lotam nossa caixa de mensagem com desejos irrealizáveis. Dinheiro, sucesso, amor, amizade… Até parece que o Ano Novo vai ser diferente. Só porque é novo, não quer dizer que não venha bichado. Pensando de modo realista, as chances de baterem no seu carro ao furarem o sinal vermelho continuam as mesmas. Ou melhor: se não aconteceu ainda, só aumentaram! A mulher pode sair de casa, o marido arrumar uma amante, o filho rodar no colégio. 2010 é uma caixinha de surpresas desagradáveis, creia. Está só esperando o dia primeiro para nos decepcionar.

Estou exagerando, é?! Ah, não é bem assim? Parece que eu estou tirando onda, ou disfarçando muito mal o meu otimismo, reclamando de forma caricata? Quer dizer, então, que só vocês podem se queixar e lotar nossos ouvidos de lixo? Antes de escrever, deveria ter desconfiado que é impossível agradar vocês, os pessimistas de plantão.

Agora me afundo de vez: FELIZ, MUITO FELIZ ANO NOVO!

1 comentário em “Número 350”

  1. É verdade, Rubem. Deve ser por isto que as crianças de hoje acreditam em papais noeis. São espertas; sabem que um só não poderia fazer tanto.

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