Número 396

TÚMULO DA POESIA

Rubem Penz

Um filho, uma árvore e um livro. Três chances de você passar pela existência terrena deixando algum legado, pequeno que seja. O filho tendo filhos (e estes outros filhos) faz com que sua carga genética se perpetue. Uma árvore crescerá, oferecendo sombra às gerações vindouras. Também frutificará e, semeando novamente a terra, conferirá à sua iniciativa jardineira ares de perenidade. E, quando você conquista a oportunidade de imprimir pensamentos em uma obra editada, estará contribuindo para a cultura da humanidade. Porém, como até mesmo a melhor receita de bolo pode abatumar, essa coisa de legado envolve riscos. E a posteridade pode trazer dissabores.

Por exemplo, alguém pariu Hitler, para citar unzinho só dos grandes monstros da História. Neste caso, ter pai e mãe explica a existência, mas não imputa responsabilidade. Pelo menos não toda… Quando uma árvore despenca sobre bens ou pessoas, causando graves danos, de nada adianta lembrar a cândida iniciativa de acomodar carinhosamente a pequena mudinha na terra e maldizê-la para todo o sempre. Quem poderia imaginar a tragédia futura? Assim como não devemos condenar grandes nomes da literatura Universal pelo mau uso que incautos fazem de seus escritos.

Quando um músico sofrível executa uma composição do genial Beethoven (trago um alemão para compensar outro*), costuma-se falar que o autor está se revirando no túmulo. Dá para se dizer o mesmo daqueles escritores cuja obra é citada sem critério, inadequada ou incorretamente. Isso quando não trocam a autoria – o que é comum na internet. Muitos são os textos que recebo atribuindo a criação ao Verissimo, Jabor ou Drummond, em uma flagrante fraude autoral. Ainda por cima escrevem de modo errado seus nomes!

Um caso clássico de autor exaustivamente citado, nem sempre com o devido respeito, é o de Fernando Pessoa. Conheci um camarada que, ao dar descarga em banheiros públicos, recita “navegar é preciso, viver não é preciso” enquanto parte sua embarcação. A cultura, no caso, está mais para o sentido laboratorial patologista do termo, do que para a literatura em seu melhor papel. Teria culpa o Pessoa? Nenhuma! (Só para não perder o gancho da escatologia, outro parceiro, ao sentir que alguém liberou um flato, cita Tropa de Elite: “Pede pra sair, número 2!”)

Vinícius de Moraes é outro que não deixam descansar em paz. Os últimos versos do belíssimo Soneto da fidelidade são pau pra toda obra: “Que não seja imortal, posto que é chama. / Mas que seja infinito enquanto dure.” Inclusive quando se muda, pornograficamente, uma das letras da última palavra, em chula alusão à potência masculina. Bom, neste caso, e pensando bem, se lembrarmos da vida do querido poetinha, talvez ele nem reclame muito. Até se divirta, rindo da perversão.

Por fim, outro de quem não largam o pé é Mário Quintana. Em seu Poeminho do Contra, ele diz: “Todos esses que aí estão / Atravancando o meu caminho, / Eles passarão… / Eu passarinho.” Verdadeiro lema para quem almeja a perenidade, os versos do poeta dão asas ao destino e põem ovos em qualquer cesta: todos nós podemos reivindicar nossas penas diante daqueles “esses” que atravancam nosso caminho. Mas tudo tem limite – foi o que eu disse outro dia para um marido traído que evocou Mário Quintana para explicar sua mansidão diante do infortúnio conjugal. Aí foi demais! Quintana revirou no túmulo!

*Braunau am Inn, cidade natal do Führer, fica na fronteira de Alemanha e Áustria.

 

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