Pedágios

Número 447

Rubem Penz

Há um sonho

Viagem multicolorida

Às vezes ponto de partida

E às vezes porto de um talvez

Tony Tornado

Já diziam os filósofos Milionário e José Rico que “nessa longa estrada da vida, vou correndo e não posso parar”. É caminho sem volta. Relógio? Naquela placa cujos ponteiros estão proibindo o retorno. Uns vão com pressa: pé no fundo. Outros, descendo a Serra com freio motor. Tudo é passageiro (menos o cobrador e o motorista). Pelo retrovisor, o reflexo da saudade. No pára-brisa, muito mais do que insetos mortos: projetos com as vísceras espalhadas por não terem nos encontrado no mesmo sentido – e isso tudo só embaça o vidro caso se queira limpar de forma descuidada.

No rádio, alternância entre notícias do mundo, previsão do tempo, condições das estradas, bloqueios… Um manancial de informações que, se bem compreendidas, resumem-se numa única mensagem: vá devagar porque correr não adianta nada. Mas há os que correm, há os que morrem. A alternativa sonora é contar com a companhia da música. Cantar junto num karaokê solitário que, mesmo desafinado, espanta o sono. Parênteses: música de qualidade pode relaxar até o ponto de adormecermos, o que é ótimo numas circunstâncias e péssimo noutras.

Sair da freeway vez que outra é uma possibilidade a ser considerada. Estradas vicinais têm seu charme. Cruzam serpenteando pelas entranhas de localidades deslocadas do tempo, temperadas de modo caseiro, veladas, macias. De tanto em tanto, aquela passagem de nível com um menino meio sentado numa bicicleta, só olhando o movimento. Dá vontade de abanar para ele, que parece o mesmo de sempre, em todo lugar. Parece conosco, também, em outra dimensão, pronto para sumir no fade out do Efeito Doppler. Nem adianta procurar o espelhinho: o guri não estará mais lá ao passarmos adiante.

Há, é claro, os pedágios… A vida, que não é nosso destino e sim nosso caminho, cobra algumas contas. Não escapamos das cancelas nem em sonho: algo, ou alguém, denunciará o passado. E vem a fatura.

Por exemplo: numa recente entrevista na rádio, subitamente (e, pior, por minha provocação), foi-me alcançado um tíquete. Pela memória infinita de um grande amigo, toda audiência soube que, no início dos anos 1970, eu cantava BR3 imitando o Tony Tornado. Também Jesus Cristo, à lá Roberto Carlos – o que, diante da insólita hipótese de eu corporificar o Black Power do Tornado, passa a ser irrelevante. Ninguém fura a cancela da memória do José Alberto Andrade.

Zé, obrigado pela tão cara lembrança! Só não sei o tamanho da conta desse pedágio que chegou de surpresa em 100 kW. Estão, no mínimo, cobrando-me explicações. Até aquele piá na bicicleta sobre a ponte está me abanando com gargalhadas, enquanto eu procuro alguns Cruzeiros no bolso.


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