Duelos mortais nas novas mídias

Coluna do Metro Porto Alegre em 20.03.13

DUELOS MORTAIS NAS NOVAS MÍDIAS

A escolha de Jorge Mario Bergoglio para suceder Joseph Ratzinger no comando da Igreja Católica oferece boa oportunidade a quem gosta de prestar atenção nas mudanças dos tempos. Primeiro, a surpreendente aposentadoria de Bento XVI varreu as mídias, apanhando o ocidente de surpresa. Depois, a preferência por um cardeal latino-americano e jesuíta tratou de alimentar a fogueira das suposições. E acredito que, nos minutos que sucederam a fumaça branca no alto da Capela Sistina, mais linhas foram escritas sobre Francisco do que em uma semana inteira de Paulo VI.

Um dos maiores encantos e, ao mesmo tempo, mais graves riscos de quem produz conteúdo para a imprensa é a velocidade com que se deve reagir aos fatos – lembro-me de um slogan sensacional de outrora: Aconteceu, virou Manchete. Por isso, as funções de editoria são ocupadas por profissionais com um perfil especial: cultos, experientes, moderados e argutos. As colunas de opinião também são espaços sensíveis. Tratando deste tema, o teórico Massaud Moisés diz que “o cronista reage de imediato ao acontecimento, sem deixar que o tempo lhe filtre as impurezas”. Escrever de chofre demanda responsabilidade.

Porém, a web criou um espaço aberto e livre de mediações. As mídias colaborativas, fenômeno em pleno crescimento, oferecem a quem desejar um canal de voz que escapa de qualquer controle e parece prescindir de prudência. É como no velho oeste: atira-se primeiro, pergunta-se depois. No caso dos papas, por exemplo, minutos após Bento XVI anunciar seu afastamento, recebi em meu computador teorias conspiratórias que afirmavam categoricamente os motivos para o acontecido: o escândalo denominado VatiLeaks e o acobertamento de religiosos envolvidos em abusos sexuais. Para o Vaticano, todo e qualquer desmentido se tornou penoso e inglório.

Com Francisco não foi diferente. Ainda se via a fumaça branca de seu anúncio quando a primeira notícia chegou a mim: Jorge Mario Bergoglio havia cooperado com a ditadura de direita na Argentina. Imediatamente, centenas de “comentaristas” passaram a condená-lo antes mesmo de conhecer as circunstâncias ou filtrar a fonte. E a força desta corrente é tamanha que, mesmo hoje, ao tomá-la como exemplo, apenas por acender em minha consciência um “será?” (nascido do pouco que conheço da Ordem Jesuíta), estou submetido a patrulhas. Eis o novo tempo: as mídias colaborativas estão duelando com a imprensa tradicional e atirando primeiro. Resta saber quantos inocentes morrerão no fogo cruzado.

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