Na moda, os travesseiros surdos

Coluna do Metro Porto Alegre em 17.04.2013

NA MODA, OS TRAVESSEIROS SURDOS

Um conselho clássico (e nem por isso menos atual) pede para que, depois de fazer um ato impensado ou desonesto, tenhamos um diálogo com nosso travesseiro. Há a esperança, por vezes vã, de que o exame recolhido e íntimo de consciência aponte as falhas em nosso comportamento trazendo como consequência a prevenção de novos deslizes. Algo como não conseguir dormir sem antes estar em paz consigo. Leve. Redimido em alguma medida.

Lembrei-me disso enquanto acompanhava o aparente desfecho de um caso extraordinário: entre nós, com a aparência mais inocente do mundo, havia um assassino capaz de executar seis motoristas de taxi em 48 horas, de modo traiçoeiro e apenas para roubar seus poucos pertences. Um rapaz jovem, bem apessoado, inteligente e sem nenhum dos motivos clássicos que a sociedade evoca para justificar (quando não desculpar) a violência. A dúvida que me assola é: como alguém consegue dormir direito depois praticar tais atrocidades?

Sono tranquilo foi tudo o que não teve a categoria dos motoristas de táxi enquanto estávamos diante de um caso de assassinatos em série. Também, dormiram muito mal suas esposas e filhos, sem a certeza de ver o pai retornar para casa. Perderam o sono todos os responsáveis pela segurança na esfera pública e não descansaram os policiais encarregados de investigar o caso. Repórteres trabalharam sem sossego para levantar todas as informações e, com isso, desassossegar a todos nós a cada manhã. Em meio a tanta mobilização, nem consigo imaginar qual seria a estratégia para o assassino calar os clamores do travesseiro…

A não ser que estejamos diante de uma novidade: que no Brasil, as fábricas tenham passado a produzir apenas travesseiros surdos. Como nada escutam, calam-se coniventes e fica tudo como está, sem consequências ou maiores dramas de foro íntimo. Desviou verbas, violentou crianças, traiu o cônjuge? Silêncio. Comprou fiscais, traficou na porta da escola, pichou os prédios da cidade? Silêncio. Torturou, sequestrou, matou? Silêncio.

O único consolo é saber que a maioria da população ainda repousa a cabeça em travesseiros antigos, tradicionais nas famílias, feitos para receber o balanço de cada dia. Pena que seja (in) justamente essa população a dormir mal, sobressaltada pela onda de crimes. Triste ver que na falsa paz de uma consciência insensível, permanece entorpecido qualquer sentimento de culpa. Lamentável constatar que os travesseiros surdos são recheados com a espuma torpe chamada impunidade.

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