Ipiranga, margens plácidas?

Rubem Penz

Uma das principais artérias de Porto Alegre, oito pistas de fluxo contínuo ligando a margem do Guaíba ao extremo leste, caminho para dois dos principais campi universitários do país (Vale/UFRGS e PUC/RS), testemunha asfáltica do meu trilhar cotidiano, a avenida Ipiranga ganhou um monumento. Após ceder alguns metros quadrados para a implantação de um viaduto elevado, o Comando Militar do Sul foi contemplado pela municipalidade com um espaço entre alças viárias e, ali, retribuiu expondo um tanque de guerra modelo Leopard 1A1 para servir de homenagem ao Exército Brasileiro.

O estranhamento foi tanto que, juro, quando vi, antes mesmo de conhecer a história completa dos favores e retribuições, bati uma foto com o celular. Não é todo dia que cruzamos com tanques em nosso caminho. Os filhos da pátria, claro, não fugiram a luta. Entidades ligadas às artes se recusaram a aceitar tal arma como sendo um monumento, grupos militantes prometeram intervir colorindo ou cobrindo a fortaleza móvel com flores, vereadores arrepiaram os cabelos da nuca, cicatrizes doeram como feridas abertas. A mim, tudo mais perturbou do que prometeu enaltecer. Sou da paz.

O curioso é que, nem mesmo esquentou o combate ideológico, o monumento partiu para restauração. Antes de inaugurarem, o portentoso blindado sofreu depredações – os faróis e a tampa do lançador de granada foram arrancados; a pintura, riscada. Tudo indica que defensores e acusadores desta iniciativa foram antecipados pela chinelagem reinante. Afinal, corromper monumentos é prática usual numa cidade carente de autoestima, educação e respeito. Sem lei. Qual o motivo para o Leopard escapar ileso? Imagino que, sem uma estrutura de proteção, em pouco tempo estaríamos diante de um monumental desmanche a céu aberto, pichado e roído como tudo mais que está exposto ou disponível.

São esses, enfim, os brados a retumbar: enquanto pensadores se entrincheiram em suas posições políticas sectárias, o cidadão comum sobrevive em território conflagrado. Com ou sem tanque, há por aqui mais riscos à vida e ao patrimônio público e privado do que muitos países em guerra. Haverá ideologia envolvida nas depredações? Teria razão quem atribui à faca que nos ameaça um carimbo de direita ou esquerda? O desmanche é liberal ou socialista? Triste demais já não saber o que é pior: meu desconforto em ver um tanque parado na rua, ou o brutal desconsolo de estarmos no ponto de alguns desejarem que ele se mova. Salve! Salve?

Crônica publicada no Metro Jornal em 26.01.16

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