Ponto de vista

Ponto de vista

Rubem Penz

Uma coincidência chamou minha atenção nos casos de perda de visão por balaços de borracha durante a recente atuação das forças de estado contra manifestantes pernambucanos: ambas as vítimas eram exóticas ao grupo. Ou seja, estavam de passagem, alheias – não digo indiferentes – ao protesto. Muitos podem ter notado isso, mas não li nada a respeito e, assim, arrisco oferecer um olhar (útil e infeliz escolha de palavras, assumo, antes de ser acusado de sarcasmo).

A verdade é que nada pode ser mais arriscado do que supor que a repressão tenha o poder da clarividência, separando as pessoas que “devem” (cheiíssimo de aspas) e “não devem” ser contidas na ocupação das ruas. Este conceito precisa servir de alerta para todos os que se imaginam livres de uma ação violenta contra si quando neutros em uma contenda, seja ela qual for, no Brasil ou lá fora.

Ainda assim, se não por uma boa índole pacifista, ao menos por preservação da própria integridade (ou da vida), o repúdio aos excessos é uma necessária obrigação simultaneamente individual e cidadã. Por essa razão estive aflito por meus filhos quando os jovens foram às ruas em 2013 e depois: sempre que os furiosos ou os auto-denominados black blocs infiltrados vandalizam, a reação da Tropa de Choque é previsível, e as consequências imprevisíveis, ou vice-versa.

Esse é o motivo de minha absoluta aversão ao conceito de estado forte, repressor. À direita ou à esquerda, ele estará abrindo a porta ao temor natural de qualquer pessoa lúcida ao “guarda da esquina”, citando Pedro Aleixo antes de ser instituído o AI-5. Também por isso renego absolutamente os atos terroristas, independentemente de suas alegadas ou inconfessáveis causas. Entre os dois lados, a maior vítima será quem nunca pensou ser o alvo. Neutralidade não é sinônimo de salvo conduto, muito pelo contrário. Pau que bate em Chico, bate em Francisco, Adamastor, Cacilda, Simão e por aí afora.

Voltando aos protestos, torço para que os guardas que cegaram duas pessoas sejam identificados e punidos – o manejo de armas não letais é precedido de treinamento exatamente para que jamais aconteçam danos graves. É muitíssimo perigoso o destemor das autoridades quando acobertadas em suas falhas. Além do mais, até onde minha visão alcança, entre as diversas passeatas acontecidas, os protestos em Recife sofreram uma reação desproporcional de parte da polícia – colocando toda cadeia de comando como responsável pelo dedo no gatilho. Servidores públicos são remunerados para tomar decisões dotadas de exatos pesos e medidas.

Lido o texto, dispare contra mim como bem desejar – neste ponto, minha vista já se tornou um alvo. Será que ela nunca foi?

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