Retratos em preto e branco

Retratos em preto e branco

Rubem Penz

“Fizemos tudo certo”, disse o pai de Kathlen Romeu, moça grávida abatida por uma bala perdida no Rio de Janeiro. Sim, fizeram um trabalho magnífico segundo tudo o que se possa esperar de uma família (quem deseja detalhes, veja nas notícias o percurso de vida dos Romeu). O que torna a tragédia ainda mais assustadora. A violência urbana, a praça de guerra imposta à população, não escolhe vítima – ainda que a estatística desenhe com traços evidentes e pinte com cores exatas o retrato falado dos seus mortos. E de quem é a culpa em última instância? Na essência, a responsabilidade é do Estado, eleito, financiado e regido pela sociedade para promover a cidadania. Explico.

Poucos fatos são tão consensuais do que jamais existir vácuo de poder. Quando um governo constituído se faz ausente, outras formas de controle ocupam seu lugar, a exemplo do tráfico e da milícia. Permitir isso é dar as costas à democracia. É admitir que brasileiros estão condenados a viver sem leis, sem segurança, sem liberdade. É assumir a pena de morte sem julgamento para uma parcela da população vitimada por estar entre o mar e o rochedo – ambos os lados ligeiros em culpar as vítimas. O que torna irrelevante conhecer o cano do qual partiu o projétil: a responsabilidade da guerra antecede o tiro.

Enquanto para um tipo de brasileiro fazer tudo certo pode ainda dar tudo errado, para o outro, nem quando fizer tudo errado deixará de dar tudo certo.

Nessas, sabe o que me intriga? Entre todas as forças implicadas na tragédia das mortes inocentes, uma só parece imune aos holofotes: os financiadores desta guerra. Revolta-me saber que o comprador das drogas é intocável, bem como é furtivo o agente governamental corrompido pelo estado paralelo montado pelas milícias. Impedir que drogas, armas e munição entrem por nossas fronteiras é uma tarefa inglória – ainda que necessária. Porém, todo esse arsenal precisa ser pago, e identificar, difundir e secar as fontes financiadoras poderia, só para variar, tornar-se prioridade. Inclusive dos jornais.

Opa! Mas aí estaríamos mexendo com indivíduos influentes que moram dentro de condomínios de luxo, cercados de privilégios. Expondo pessoas para quem eu e você damos bom dia, colegas de trabalho ou pais na escola das crianças. Amigos de clube, parceiros no andar de cima da sociedade. Gente de bem, cujo único pecado é, quem sabe, não ser perfeito… Um grupo que, no máximo, ora veja, “comete falhas”.

Este é o meu desânimo. O retrato dos impunes financiadores da guerra é muito diferente daquele das vítimas da guerra (e o retrato não falado é bem claro). Enquanto para um tipo de brasileiro fazer tudo certo pode ainda dar tudo errado, para o outro, nem quando fizer tudo errado deixará de dar tudo certo. Ponho a mão na consciência: escandaliza-me o morador da favela acobertar bandidos ao mesmo tempo em que silencio o que sei e quando sei sobre seus clientes. Aqui, fico a cuidar da vida. Lá, estão aos cuidados da morte.

Perdão, não quero constranger ninguém a despir reis – eu mesmo admito fazer olho branco, né? Apenas ofereço uma maneira digna de agir sem muita exposição: avalie opções e vote melhor. Pois, paradoxalmente, só daquele culpado em última instância, o Estado, poderá vir uma solução segura para todos. Tarde demais para Kathlen. Sirva-nos de farol o seu retrato.

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