Golos

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Rubem Penz

“…o Rubem é um cronista de botequim exímio –

o que não significa que não exerça seu talento em todos os estilos,

como o Edenilson no Inter.”

Luis Fernando Verissimo

Recordo como se fosse ontem: algumas pessoas não entenderam as últimas palavras do mestre LFV na orelha generosamente ofertada ao livro “Hoje não vou falar de amor” quando me comparou ao Edenilson. Não os culpo. Talvez gostassem tanto de mim que esperavam um Figueroa, um Falcão, um Gamarra. Ou tão pouco a ponto de jamais me escalar em nenhum time decente, muito menos neste que, por um mísero gol, deixou escapar o Brasileirão de 2020 (resisti bravamente à tentação de nominar pernas-de-pau que jamais deveriam ter vestido o uniforme alvi-rubro). Eu, ao contrário, me senti prestigiado ao extremo.

Poucas vezes vi um jogador ser tão determinante no sucesso de um conjunto no máximo, digamos, voluntarioso. Coube ao Edenilson estar no Beira-Rio para cumprir uma jornada árdua: reconstruir a auto-estima da torcida depois de seu maior insucesso, resistir às consequências de uma administração questionada na justiça e, ainda assim, promover uma trajetória muito acima da média (ou do esperado por analistas). É num plantel sem estrelas que o conjunto se destaca; é neste conjunto que brilha com mais força a estrela dos generalistas. O mesmo jogador que não alcançou a Seleção Brasileira na qualidade de segundo volante – supondo ser essa sua função natural – é um dos raros atletas que pode ocupar a vaga de meia-armador, ala pela esquerda e pela direita, zagueiro, centroavante e, como vimos domingo, goleiro!

Quer outra proeza? Ele tem 100% de aproveitamento em cobranças de pênaltis. Porém, apenas em um time sem astros cabe a um Edenilson a função de batedor oficial da equipe. Até pouco tempo, todas as penalidades máximas eram batidas pelo D’alessandro. Sou fã do Dale, é um jogador que estará para sempre figurando nas “seleções de todos os tempos” do Beira-Rio para uns e outros, e com justiça. Mas, quer saber? Nos pênaltis, a cada corrida dele até a bola, eu ficava com o coração na mão (para não citar outra parte do corpo). Morria de medo. Craques têm muito a perder, e isso amolece as pernas. Jogadores livres dessa pressão podem cumprir a tarefa com mais foco, alcançando a excelência através do treino. Num mundo mais lógico e menos emocional, seriam os candidatos naturais para a função.

Ah, no momento em que Edenilson vestiu as luvas contra o América-MG, lembrei do Verissimo e, baixinho como quem faz uma oração, pensei – obrigado, meu Deus, pelas lindas palavras. Só existe algo melhor do que ser comparado aos melhores: estar na condição de confiável. Esteja onde eu estiver, se meus pares fazem tal gesto, ou seja, entregar para mim uma tarefa para além de meus limitados talentos, eis a chance de eu estender minhas habilidades. E a prova de que acreditam em mim, muitas vezes, mais do que eu próprio acredito. Mesmo consciente de ter nos faltado um mísero gol para a suprema glória, adormeci com a sensação de dever cumprido.

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