Ovelha não é para jardim

Ovelha não é para jardim

Rubem Penz

Alérgicos do mundo, uni-vos! Se não para uma solidariedade vermelha, inchada e repleta de comichão, ao menos para festejar a alegria de não vivermos pelados no mato. Se eu fosse mais justo, agradeceria aos céus a ventura de ter janelas com telinha mosqueteira em cada descer do sol, naquele momento de lusco-fusco no qual os mosquitos saem dos recantos úmidos dos jardins em busca de sangue. Do meu sangue. Do nosso. E deixam suas marcas.

Descobri minha incompatibilidade com a natureza mais natural cedo, ainda na infância. Num domingo de missa, na Praia do Barco, pisei inadvertidamente em um formigueiro. É uma das mais antigas lembranças da minha vida. Tiveram que cortar as tiras da sandalinha Ortopé para driblar o inchaço, tive febre, passei muito mal. Desde então, passei a manter distância das formigas, especialmente as vermelhinhas – as piores. Também são vermelhas aquelas mais alongadas, que vivem em figueiras e caem sobre a gente do nada. Há uma figueira enorme ao lado de casa. É horrível. Aliás, a pior história para mim, a mais brutal, é a do Negrinho do Pastoreio – ninguém merece morrer sobre um formigueiro.

Mais tarde, com o avançar dos anos, outras alergias foram aparecendo e, mais e mais, os insetos tiram meu sono. Uma picada de mosquito não é mais um infortúnio passageiro: a reação perdura por dias e dias. Quando dentro de casa, consigo evitá-los. O problema é estar exposto e esquecer de colocar repelente. Essa gosma fedorenta e oleosa é muito desagradável. Ainda assim, bem pior é não usar e deixar a mosquitama encontrar em mim um restaurante convidativo.

Este final de semana precisava aparar a grama do pátio e do jardim. Numa primavera em que o inverno está fazendo-se reincidente, estava de abrigo. Mas recolhi as mangas acima do cotovelo e as calças acima do joelho. Peguei o repelente e passei nos braços e canelas. Tudo certo. Tudo certo? Não: faltou esfregar o produto atrás dos joelhos, ali nas dobrinhas. Eu não notei. Eles notaram. Cinco mordidas de mosquito comicham neste momento, duas em uma perna, três na outra. Um inferno! Como conseguiram, não sei.

De tanto em tanto tempo contrato um jardineiro profissional, mas, nos intervalos, dou conta da manutenção. Ele acha muita graça das minhas queixas: leva picadas de formiga, mosquito, abelha, vespa e nada sente. Mexe em formigueiros com as mãos, gente! Sinto-me uma flor de estufa ao seu lado. Uma bonequinha de louça. Um copo de cristal. Tudo bem, isso está além do domínio de nós, os alérgicos. Ovelhas que não são para o mato. Nem para o jardim.

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