O vexame que se cometa

Rubem Penz

Você já teve a experiência de parar defronte aos espelhos distorcidos dos parques de diversão? Eles mostram nossa imagem refletida de maneira torta, alta, baixa, gorda ou magra e, ainda assim, dá para ver que somos nós ali. Essa é a graça. A versão tecnológica do fenômeno aparece nos filtros desenvolvidos para telefones celulares, alguns com o requinte de alterar a voz de modo simultâneo. Experimente ler o texto mais sério, trágico ou triste que puder e, ao aplicar o filtro, verá que tudo vira comédia.

Mas, e quando já não há espelhos perfeitos ou imagens sem filtro? Neste caso, o que existirá é alguma coisa parecida com o filme “Não olhe para cima”, do diretor Adam McKay. A trama nascida para denunciar a onda negacionista que assola a humanidade tem como atributo principal expor ao estrambólico todos os protagonistas: dos cientistas aos políticos, dos militares aos jornalistas, ninguém escapa ileso. Todos os personagens falham grosseiramente diante de nós – e, nós, no caso, somos eu e você que alimentam a fantástica indústria dos memes e das lacrações.

Este é o poder e, ao mesmo tempo, a danação do palhaço: seu fracasso nos redime. Todos, até o mais circunspecto senhor de gravata e a mais severa senhora de camisa fechada até o último botãozinho de madrepérola – especialmente eles? –, estamos sujeitos ao tombo, ao ridículo, à vergonha. Quanto mais nos levarmos a sério, maior será o medo de rirem de nós. Tropeçar deixa de ser o problema: o problema é tropeçar em público. Assim, no momento em que o artista simula um malogro, além do humor, há um sentimento de alívio. Meme com a imagem do outro é colírio. Sobre minhas contradições, melhor ninguém ver.

Justamente o que me encantou, desagradou alguns: habitantes de bolhas adoram o universo maniqueísta do bem e do mal. Tirar sarro de todo mundo é desconfortável, e todo mundo tropeça feio durante a trama. Mas, será que o filme com isso deixa de ter lado? Claro que não! Os vilões são o político inescrupuloso e o antiético multimilionário da tecnologia. Os mocinhos são os cientistas e os jornalistas fazem o papel de bufões. Há escatologia no cardápio, fraqueza de caráter a rodo, ignorância a desgosto do freguês, muito mimimi recheado de incongruências, futilidades adornando os pratos e todo tipo de iniquidade. Finalmente uma comédia politicamente incorreta disposta a livrar ninguém.

A melhor/pior notícia: ao retirarmos os filtros ou as elevações e depressões do espelho, somos nós, ali.

 

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