A mágoa das coisas

Rubem Penz

Pessoas se magoam. Umas se magoam facilmente – basta um olhar torto e já temos um beiço acusatório. Outras demoram um pouco mais e chegam a resistir a ofensas ou pequenas traições. Caso você nunca tenha magoado alguém, uma só certeza me surge: não quero sua companhia nem para dividir uma fila de vacina. Spoiler de possível mágoa: você – que nunca – só pode ser uma geléia em forma de gente, deve ter sangue de barata ou é um projeto de sociopatia em curso. Porque as pessoas se magoam.

E as coisas, hã? Serão elas mais ou menos sensíveis para além das trincas, rachaduras, amarrotamentos que possam sofrer por descuido nosso? Essa questão sempre existiu em meu íntimo e voltou domingo passado. Conto a razão: a primeira coisa que faço na cozinha pela manhã é colocar uma chaleira com água no fogo para cevar o mate. Por isso, uma das providências inaugurais do dia é montar o chimarrão. Chego a ter uma escala de cuias para garantir que todas tenham tempo de secar direitinho e, claro, tenho minha predileta, comprada em uma feira de artesãos em Montevidéu, que reservo para os… domingos. Um dia afeito às carícias no “seio moreno”, como já definiu Glaucus Saraiva. Domingo passado foi um pouco diferente.

Bom, minha experiência diz que devemos nos comportar com as coisas como é o certo de se fazer com as pessoas as quais magoamos: pedir desculpas.

Não saberei dizer a razão – tentei sem sucesso mapear a rotina. O fato é que, mesmo desde cedo de pé, mesmo cevando o mate e colocando a água na garrafa térmica, mesmo com o kit por perto, não toquei no chimarrão até, sei lá, umas nove e meia. Quando, enfim, fui me servir do primeiro mate, a cuia pareceu se mexer e nela esbarrei com as costas da mão, derrubando-a da mesinha auxiliar. Tombo pequeno – ainda bem, não quebrou. Toda a erva seca que formava o topete se espalhou no chão. Quando eu disse:

– Nem tomei o primeiro e já fiz um estrago!

– Olha a hora, ela deve estar magoada contigo – respondeu a Vanessa.

Minha cuia domingueira se esquivou para, quem sabe, punir-me e, desastrado, só piorei a situação. As coisas têm dessas coisas. Jamais esqueço que nunca podemos comentar sobre o desejo de trocar de carro perto dele, pois começará a enguiçar uma peça diferente por semana. Mágoa pura. Vale para telefone celular, computador, rádio, TV, geladeira… Ficam de mal conosco. Fazer o quê?

Bom, minha experiência diz que devemos nos comportar com elas como é o certo de se fazer com as pessoas as quais magoamos: pedir desculpas. De coração, nada da boca pra fora. Uma palavra torta aqui ou ali, um esquecimento ou um esbarrão sempre há de nos escapar. Ter a humildade de pedir perdão é a saída. Sociopatas discordarão.

 

4 comentários em “A mágoa das coisas”

  1. Marcos Dillenburg

    Acrescentando: Eletrodomésticos fazem motins e complôs. Nunca estragam sozinhos na casa. Há vida na outra ponta da tomada também.

  2. Ivone Izquierdo

    Este fenômeno que acontece quando as coisas todas ficam contra nós, nos magoam a alma e o bolso, eu chamo de “Poltergeist”. É uma espécie de vingança.

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