Bitcoin

A navegação digital cria seus próprios galeões, seus particulares tesouros, seus novos piratas. Faz tempo que as transações deixaram de ser físicas. Portanto, nem mesmo comprar ou vender ouro envolve, necessariamente, o real transporte de barras. Agora (na verdade há mais de uma década), cada vez mais circulam pelos oceanos etéreos as criptomoedas. Dentre elas, a que me soa bem famosa é a tal de Bitcoin.

Nada sei de bitcoins. Ignorância completa, pobreza absoluta. Quando tentam me explicar, perco-me ainda mais. A única relação que tenho com essa moeda é achar muito, muitíssimo engraçado seu nome. Bitcoin. Parece outra coisa, não uma moeda. Euro, Dólar, Peso, Real… Iene, Rupia, Rublo, Dinar… Não importa o país, todas as moedas parecem mais verossímeis em seus nomes. Vêm com peso – outra vez me recordo do ouro. Aos olhos e ouvidos, consigo imaginar muitos cenários diferentes em que os (as?) bitcoins estariam mais adequados. Por exemplo:

A única relação que tenho com essa moeda é achar muito, muitíssimo engraçado seu nome.

Armou seu estilingue com um seixo quase do tamanho de um ovo de angolista, tencionou a borracha desde o braço esquerdo esticado à frente até sua mão direita estar quase a altura de sua orelha e – bitcoin! – viu estilhaçar o vidro da janela da vizinha. Boa mira nunca fora seu forte.

– Bitcoin, bitcoin, bitcoin – gania Alemão rua abaixo, fugindo das sarrafadas de Adamastor. Houve um tempo em que tal estardalhaço estimularia os vizinhos a ligarem para a carrocinha, posto que o vira-latas caramelo não ostentava coleira ou pedigree. Hoje, a cena foi filmada por mais de um celular e constituiu prova na delegacia por denúncia de maus tratos. Sinais de evolução.

O padre se esforçava em compreender as palavras tão tímidas da beata no confessionário. Menos por acreditar na severidade dos pecados que a senhorinha pudesse trazer para além dos fogachos desde que começara aquela obra ao lado de sua casa, e da insistência dos pedreiros em tirarem suas camisas para o futebolzinho no intervalo do almoço. Comprometia-se mais por solidariedade – ela parecia realmente sofrer com a culpa de nunca ter pensado assim de Péricles, seu falecido. Porém, no momento em que instalaram a cama elástica na praça ao lado da paróquia, tudo o que o pároco escutava era a algazarra incansável das crianças – bitcoin, bitcoin, bitcoin, bitcoin…

Enfim, para além dos galeões no oceano virtual, a cabal certeza é a de que não ganho nada com essa mente que só pensa em bobagens, convertidas em seja lá qual for a moeda.

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