A criatividade em risco de extinção

O que faz alguém ser rápido no raciocínio? Espirituoso? Engraçado? Comunicativo? Pensava agora sobre quais seriam os atributos a compor o conjunto de habilidades aos quais um indivíduo lança mão para ser considerado bom falante. Com muita frequência essas pessoas são rotuladas de inteligentes, cultos. Mas isso não é verdade: existem gênios de verve insossa e limitados extremamente perspicazes. A qualidade mais relevante na construção de uma pessoa boa de papo é a coragem. Nos tempos de hoje, cada vez mais.

Conversa não é literatura, não é ciência ou cinema. Nenhum talento humano de investigação e construção minuciosa de conhecimento ou arte. Diálogo é improviso e, não à toa, quando se abrem as janelas de solo em um show de jazz, diz-se que os músicos “conversam entre si e com o tema”. Instante de maior brilho e, ao mesmo tempo, de maior risco – improvisar demanda fluidez instantânea e coragem para sentir os elementos que compõem a música em colisão.

A qualidade mais relevante na construção de uma pessoa boa de papo é a coragem.

O Paradoxo Tostines (vende mais porque é fresquinho, ou é fresquinho porque vende mais) se aplica na crença de que os comunicativos têm sucesso nas carreiras comerciais. Outra vez o fator coragem aparece em segundo plano quando, na verdade, ele é determinante: a única garantia de uma ação de venda é a recusa, ou seja, quando o cliente já vem decidido (por diversas ações de marketing que antecedem o momento), não existe venda, existe compra. O destemor abre as portas ao talento de intuir oportunidades na análise do olhar, dos gestos e das palavras de um possível consumidor para movê-lo na direção do produto. De dizer a coisa certa.

Não à toa chamamos os sedutores de impetuosos – encaram o risco de eventuais recusas sem medo. Também admiramos os comediantes – temem nada, nem mesmo o ridículo. Ao normalizar os cancelamentos e os tribunais inquisitórios das redes, a comunicação espontânea e livre pode virar uma espécie em extinção. In vino veritas, diz o ditado sobre a língua solta dos embriagados. Por raciocínio inverso, o silêncio e o medo estão ditando o sucesso desta geração que parece mais disposta à censura do que à liberdade. Calar os espirituosos tem um preço: condenar toda uma geração a cumprir a risco uma pauta, seguir sem questionamentos uma cartilha, matar a criatividade.

6 comentários em “A criatividade em risco de extinção”

  1. Que questão criativa te inspirou! Gostei muito. O detalhe do Paradoxo de Tostines me concedeu uma viagem no tempo. Viagem rápida, para não perder o fio da história. Obrigada!

    1. Rubem Penz

      Oi, Lídia!
      Sim, o Paradoxo de Tostines é ótimo. Sou um fã incondicional de propaganda com talento.
      Obrigado, beijos,
      Rubem

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