O que você é do Raul?

Nem uma nem duas vezes me fizeram essa pergunta. Centenas, talvez. Em ambientes diversos, tempos diferentes, círculos os mais variados possíveis. Basta ler ou escutar meu sobrenome e, depois de um olhar mais atento – quem sabe buscando alguma semelhança física –, abrem-se sorrisos e a questão vem à queima-roupa: o que você é do Raul?

Sempre houve dois “Rauls”, meu tio e meu primo. Também era fácil saber a qual estavam se referindo. Fossem os interlocutores para lá de vinte anos mais velhos do que eu, o Raul era o tio Raul, irmão do meu pai. Acontecia, claro. Porém, o mais frequente papo da gente é com a nossa geração, né? Logo, o Raul era quase sempre (e mais e mais) o Raul Alberto, primo-irmão ano e meio mais velho e que, como eu, tem o mesmo nome do pai. Na família, Gordo (ele) e Mano (eu).

A malandragem exalava de seus poros, como se todos os genes da autoconfiança, bastante representativos nos Penz, contemplassem-no.

Em tais momentos, invariavelmente, depois de saberem de nosso parentesco próximo, todos me ofereceram de volta uma franquia de carinho e amizade, crédito deixado pelo Raul em suas vidas. Com pouco tempo, apenas informavam de onde o conheciam. Nas vezes em que a conversa tinha chance de evoluir, sempre havia uma aventura, uma noite inesquecível, um período da vida marcante em que o Gordo era protagonista. Ao seu lado eu posso ser considerado um cara tímido. Tirem a medida.

Quando éramos todos adolescentes e jovens adultos, eu desejava ser um pouco parecido com ele, e isso era impossível. Ele era quase um super herói: esportista absoluto (futebol, handebol, tênis, surf…), conquistador implacável (as meninas se derretiam por ele), encrenqueiro nato (se houvesse uma briga, ele estaria no meio) e conhecido por uma multidão. A malandragem exalava de seus poros, como se todos os genes da autoconfiança, bastante representativos nos Penz, contemplassem-no. Na época, minha autoestima era claudicante.

Hoje, enquanto escrevo, meu primo luta pela sobrevivência. E não está fácil, nada fácil. O que começou com uma pneumonia dupla – e no dois contra um para ele seria moleza – avançou sobre o coração e o esôfago. Bactérias muito fortes. Fazem-me lembrar de uma briga generalizada que aconteceu na Praia do Barco quando eu tinha uns 14 anos. Eu não entrei. Depois, o Raul deu-me uma carraspana: não importa apanhar, é preciso defender os amigos. E aqui estou eu, outra vez, fora do bolinho. A diferença é que, mesmo sem conseguir ajudar para além das preces, o destino está me surrando junto. Golpeando a todos que o amam. Meu Deus, ajuda quem briga tão bem!

E você, o que você é do Raul?

32 comentários em “O que você é do Raul?”

  1. Jussara Nodari Lucena

    Querido amigo Rubem. Através de tuas palavras, Raul se tornou meu amigo de muitos anos.Que vença a dura batalha para que nossa amizade perdure no tempo. Obrigada.

    1. Rubem Penz

      Jussara, quero informar para ele que ganhou a amizade de uma pessoa muito especial. Muito obrigado!

  2. Maria José

    Não sei escrever como esse primo.
    Não tenho Penz no nome, mas sou Penz de mãe.
    E como queria esse sobrenome no meu.
    Para esses primos Mano, Gordo e todos os outros… sempre olhei com carinho de prima irmã.
    Hoje me junto a ti Rubem, em oração pelo primo Raul Penz.

    1. Rubem Penz

      Querida Maria José, sempre fomos como primos-irmãos, ainda que primos-primos. Muito obrigado pelo carinho e amizade. Beijos

  3. Vivian Pessoa

    Li sua crônica agora e não pude deixar de notar a coincidência, meu pai passa por situação parecidíssima. Por isso venho aqui reforçar os desejos de força e restauração ao seu primo. Ouso ainda a desejar que nossos clamores se unam e cheguem mais fortes aos céus. Que o autor de todas as histórias interceda por nossos amados brigões e que seja apenas mais um capítulo com final feliz.

    1. Rubem Penz

      Vivian, minha solidariedade neste momento de força e fé. Que seu pai e meu primo estejam em breve nos brindando com sorrisos. Abraços, grato, Rubem

  4. Venâncio Edgar zulian

    Difícil quando fazemos essas crônicas. Situações que demandam fé e compreensão. Força para ele e para todos vocês. Agora sou torcedor do Raul

    1. Rubem Penz

      Bom, então deixa contar que sou fã, também, dessa leonina que se antecipa a cada ano em brindes! Beijão, Martina

  5. Força pra ti, Rubem, pra família e especialmente pro Raul. Tua capacidade de transformar palavras em vida transformou-se em torcida pela rápida recuperação do teu primo.

    1. Rubem Penz

      Claudia, saudade! Muito obrigado – há uma torcida enorme e, graças a Deus, com bons resultados. Beijos, Rubem

  6. STELLA MARYS VIVES DE SOUZA

    Rubinho, meus sentimentos. Vc é Raul são meus primos em 2o grau. Lembro de todos, ainda pequenos, correndo no avarandado da Vila Morena. Sou Penz por parte da vó Paula. Raul me reencontrou há uns 13 anos e foi um grande amigo. Me fazia rir e eu também chorei em seu ombro . Vou sentir saudade desse grande cara, pescador, gremista, churrasqueiro e, acima de tudo, um amigo de coração grande.

    1. Rubem Penz

      Stella Marys, sim, aquele varandal era um convite para brincadeiras. Fico feliz com suas lembranças. O Gordo está sorrindo para nós lá de cima! Abraços, prima!

  7. Muito triste o dia de hoje. Estudei com o Raulzito no IPA. Nos reencontramos em Los Angeles quando apareceu na minha empresa procurando emprego, e obviamente o contratei na hora. Nos reencontramos novamente em Porto Alegre e semanalmente nos falávamos pelo WhatsApp. Meus mais sinceros sentimentos à familiares e amigos. Vá em paz meu irmão.

    1. Rubem Penz

      Muito obrigado, Roger!
      Somos felizes por ter a companhia do Raul em nossas vidas, algo prematuramente interrompido.
      Abração!

  8. Ivania Maria Antinolfi Divan

    Meus sentimentos , Fui amiga na infância dos Penz da Dona Morena. Na Av. Presidente Roosevelt…Rubem, Raul, Renato , Zézinha e Maria….. . Muito triste ! Abraços.

    1. Rubem Penz

      Obrigado, Ivania. O sobrenome “Antinolfi” é sempre pronunciado com carinho lá na casa da mãe… Abraços

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