Tomara que não caia

“Passas sem ver teu vigia, catando a poesia

que entornas no chão”

Chico Buarque

São muitos e fascinantes os talentos da Vanessa. A mim, cabe colecionar na retina suas formas, os gestos, os contornos de musa. Também guardo suas palavras ditas a todo momento e em cada preciso tom – desde os sussurros de carinho ao alerta enérgico de quem não veio ao mundo a passeio. Sempre que posso a respiro, toco e, de cada pedacinho do corpo, reconheço o sabor. Fascina-me sua visão de mundo. Porém, amar também é compilar curiosidades. Detalhes bobos da rotina, sabe? Como, por exemplo, quando ela propõe para mim alguns jogos só dela.

Um deles me deixa sempre em alerta e exige plena concentração. A Vanessa, revelo aqui, é mestre em empilhamento de peças no secador de louças. Ela enxágua travessas, pratos, talheres, utensílios, canecas, copos, cuia, cumbucas, concha, escorredores, peneiras, panelas e suas tampas, e dispõe absolutamente tudo no exíguo espaço daqueles secadores de bancada. Uma verdadeira pirâmide de objetos de múltiplas formas e materiais: há metal, vidro, cerâmica, plástico… Uns sobre os outros, compõem a multiplicidade de posições e encaixes que nem o Kama-sutra compilou. É lindo de se ver mas, é claro, essa instalação tem um tempo determinado para ser exposta.

A exposição de nossa intimidade sugere certos limites.

Aí que eu entro na história. Com o pano de prato na mão esquerda (para dirimir alguns pingos renitentes), desmontar a pilha é uma espécie de compilação de três jogos infantis: pega-varetas, cai-não-cai e caiu perdeu. Uma prova que exige diversas habilidades, tais como observação, planejamento, motricidade fina, astúcia e análise tridimensional. Ninguém deseja ver uma travessa de vidro, um prato, copo ou pote de porcelana virar pedaços ao cair no chão. Também é desejável evitar o trabalho de lavar novamente talheres que podem sumir para o vão entre a pia e o fogão, sem falar no estardalhaço de uma panela ao se chocar com o piso cerâmico – e o risco de entortar?

Entre todos, o volume mais perigoso é a tampa de panela. Ela costuma sustentar o equilíbrio de uma série de outros objetos na medida em que se encaixa nas vilosidades do secador. Ao mexer na tampa na hora errada, tudo pode desabar em volta. Sabe aquela sua caneca de estimação? Justo ela é quem tem a maior tendência suicida, só esperando você retirar a tampa de modo inconsequente para tentar o salto final na direção do piso da cozinha. Pior, só se for a caneca de estimação de outra pessoa – ninguém acreditará que foi um acidente. Serão dois os lascados.

Lamento muito não ter correspondido às expectativas de quem julgava ler uma crônica mais picante (ainda que copos plásticos sejam bem picantes quando caem do secador). A exposição de nossa intimidade sugere certos limites. Como consolo, depois de revelar este talento assim tão vertical da Vanessa, deixo alguns mistérios a critério da imaginação.

22 comentários em “Tomara que não caia”

  1. Altino Mayrink

    Muito, muito bom! Parece que só elas conseguem essa capacidade de empilhamento em espaço reduzido!

  2. Crônica muito boa, Rubem! Quanto a mim, creio que é mais fácil resolver um cubo mágico do que desmontar sem acidentes uma pilha de peças no secador de louças. Abraço.

  3. Sexo verbal? Faça correr espuma pelo vão de peitos sonhados, ponha um dedo de moça na historinha, Rubem. Mas não convide o público a imaginar tua mulher na horizontal brincando com você. A imaginação do povo pode ser bem vulgar…

  4. Greta Cardia E. M. Guimarães

    kkkkk! Muito bom mesmo. Além de ser marido apaixonado, tu tens que ser equilibrista e comedido ao falar das tuas intimidades – acho que a Vanessa estava por perto quando resolveste escrever e ela sussurrou no teu ouvido…kkkk

  5. Sempre tão criativo…Adoro ler tuas crônicas…E da pra sentir teu amor por ela…a Vanessa…abraço.

  6. Venâncio Edgar zulian

    Cara, sensacional. Aqui se tem uma grande crônica de um grande cronista. Parapenz, Rubem. Coisas simples tratadas com perspicácia ficam gigantes. O ” copo plástico picante” foi pra matar. Muuuito boa.

  7. Ana Paula Gasparini

    Que maravilha de crônica! Tão visual! Fui desconstruindo toda a pirâmide na mente. E morrendo de medo de algo se espatifar.

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