Teria a chuva o poder de extinguir dinossauros?

“Nós nos transformamos naquilo que praticamos com frequência.
A perfeição, portanto, não é um ato isolado. É um hábito”
Aristóteles

Cedíssimo da manhã, antes do amanhecer, diante da porta de casa, pensava eu sobre a entrega de jornais aos assinantes. É um trabalho simples e digno. A porção mais capilarizada da cadeia de distribuição dos periódicos, última etapa antes do leitor. Acontece na madrugada pois, para quem cedo pula da cama, estar com as notícias frescas é parte do contrato. Um motoqueiro hábil dá conta do recado. Calculo que seja para todos, ou quase todos, uma ocupação secundária – há muito dia pela frente para acomodar outras tarefas.

Moro na mesma casa há vinte anos e nem imagino quantas vezes trocou o entregador. Até hoje, só fiz amizade com um. Ele, além de entregar jornais, era leitor e me reconheceu. Teve a iniciativa de comprar um livro, o qual recebeu autografado. Fez-me sentir um Rubem Braga, passageiro de um vagão do passado. Porém, o normal é apenas escutar o ronco do motor em madrugadas insones. E, diante da porta de casa, pensando nas entregas aos assinantes, refletia sobre minha história.

Na infância, a porta da frente era franqueada a quem chegasse à campainha. Tinha um postigo, e essa era toda a providência de segurança. Outros tempos. Hoje, um dos maiores luxos de se morar em condomínios é abrir mão de grades ou muros altos. É o meu caso. Logo, nada se interpõe entre a calçada e o espaço abaixo de uma pequena marquise onde está minha porta. Cedo pela manhã, procuro de forma diligente pelo jornal. Pasme: ele pode estar em qualquer ponto geográfico da fachada, sempre em um lugar diferente, ora aos meus pés, ora muito escondido.

Há de cinco a seis metros quadrados a serem considerados “perfeitos”, seguro de intempéries. E a casa não tem complicadores como, por exemplo, aclives. Para quem, por dever de ofício, torna-se experiente em arremessos, acertar não é difícil. Facílimo errar por pouco. Deixar lá na calçada ou no meio das folhagens distantes só posso considerar desleixo. É quando uma máxima de Edward Murphy afirma que “se algo pode dar errado, dará errado da pior maneira, no pior momento e de modo a causar o maior estrago possível”. Para o papel, o erro vem com a chuva.

Se (ou quando) eu desejar, adotarei o entregador virtual de jornais, o distante apertador da tecla “enter” a quem jamais conhecerei. Estarei assim “demitindo” de minha rotina os muitos funcionários da fábrica de celulose, os transportadores das bobinas, os operadores das impressoras, os funcionários da expedição, os transportadores para as centrais de distribuição e, ali, os funcionários que recebem e organizam os periódicos etc. Também o motociclista que faz roncar motores na madrugada silenciosa. Todos me surgem ao recolher o jornal molhado. Nenhum deles sabe o risco que correm na pressa do colega. Um recado deste dinossauro aqui, cujo hábito de ler em papel luta contra a impaciência.

11 comentários em “Teria a chuva o poder de extinguir dinossauros?”

  1. Título que, assim como o texto, é criativo, intrigante, desperta a atenção do leitor. Eu mesmo, durante a agradável leitura, fiquei curioso para saber onde os dinossauros se encaixariam na história, e qual seria a conexão entre a chuva e a extinção desses bichos. Então, no último parágrafo, as nuvens pesadas se foram e veio um céu de brigadeiro. Parabéns, Rubem. Excelente crônica!

    1. Rubem Penz

      Obrigado, Ataíde! Que bom que foi até o fim, senão o título fica “no ar”. Abraços, Dinossauro

  2. Altino Mayrink

    Entendo você, já que sou leitor de jornais em tabletes à anos… mas, nas madrugadas insones, virar um copo de leite quente sobre a tela é um risco. Não teremos outros para culpar a imperícia!

    1. Rubem Penz

      Sim, sim, Altino. Nós, dinossauros, não corremos esse risco do leite – não somos mamíferos… Valeu, abraços!

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