O carinho de um abano

Entre o leque de ações que visam o alívio de uma dor, de um incômodo ou de uma aflição, destaca-se o ato de abanar. Só quem viveu no passado recente (ou nem tanto) sabe o quanto era importante acelerar a evaporação ao aplicarem mercúrio ou Merthiolate na ferida – fosse abanando com instrumentos improvisados ou mesmo em assopradas. Hoje, parece que ardem menos – viva os avanços da medicina! Lá no passado, sempre tinha alguém para ditar o adágio popular “o que arde, cura; o que aperta, segura”, enquanto a vítima do esfolamento tentava evitar a assepsia aos gritos. Outras dores também sossegavam com o ventinho.

Na base das abanadas, nos livramos do calor mais severo. Ele pode ter uma causa climática, quando não existe a chance de apelar para ventiladores ou aparelhos de ar-condicionado. Há ainda os calores que nascem dentro, apesar de as cenas clássicas de mulheres se abanando ao perceber o rosto ruborizado terem ficado para trás junto com a ardência do Merthiolate… O avanço que mudou isso não é da medicina, mas dos costumes: já nem existem, ou foram desmistificados, muitos tabus comportamentais – quase dá para pensar que só os antigos ainda ficam vermelhos. Para sustos, desmaios e aflições, abanar foi e é santo remédio.

Pensava nisso ao lembrar do carinho oferecido pela Dra. Casieli, anestesista, quando de minha recente cirurgia. Explico. Para a retirada de um – ou devo dizer outro? – sinal suspeito na pele, foi-me dada a opção de analgesia local com ou sem sedação. Mesmo com a tentação do sono profundo, optei por permanecer acordado para sair do bloco sem a necessidade de acompanhamento. Minha única observação: o desconforto olfativo da cauterização. É impossível esquecer que o cheiro de churrasco queimado é na gente. Se foi ruim quando outra operação aconteceu no peito, no rosto seria muito pior. E só não o foi por um ato de solidariedade.

Enquanto monitorava um batimento cardíaco aqui, uma pressão arterial ali e uma saturação acolá, a Dra. Casieli se dispôs a dar aquela abanada providencial na fumaceira, levando o cheiro de queimado para longe. Se isso não aviva as brasas da crença na humanidade, não saberia o que mais teria tal poder. Quando em uma cirurgia, o que mais desejamos é confiar nas pessoas e na capacidade de exercerem seus ofícios com excelência. Logo em seguida, em sua carga de humanidade, tempero fundamental no abrandamento de nossa vulnerabilidade explícita. O vento fez toda a diferença.

Para ganhar o dia de uma vez por todas, descobrimos eu, ela e quem mais estava no bloco que ela já me conhecia, por assim dizer. Não pessoalmente. Sem ninguém assoprar nada, reconheceu-me pelo nome que assina um livro de crônicas – justo o Hoje não vou falar de amor. Coincidências desta natureza foram ótimos presságios a chegar numa manhã de outono no Hospital Moinhos de… Vento.

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A crônica é um texto híbrido, meio jornalismo, meio literatura. Porém, à crônica diária, dedicam-se quase exclusivamente jornalistas – verdadeiros ases do gênero. Um deles faleceu aos prematuros 60 anos e, para ele, presto reverência. Vida longa à obra de Coimbra, ao mesmo tempo David e gigante. Aquele chope cremoso da foto ergo em sua homenagem.

 

13 comentários em “O carinho de um abano”

  1. Se for importante, seguro a mão, pisco, choro junto na dor, mecho nos cabelos, sopro, passo gelo, ou descanso panos quentes sobre o local, dou um beijinho na ferida depois de limpa; critico severamente a falta de exaustor nos consultórios; planto girassóis rendendo homenagem – aos vivos, rosas aos mortos -, mas abanar?, abanar não abano. Não sou tão carinhosa assim. Escolheu mal as palavras, dou adeus e encerro a operação pra sempre. Tem profissões que não condizem com certas pessoas em determinados momentos da sua vida, decido. :* Adeus, Rubem.

  2. Venâncio Edgar zulian

    “Se isso não aviva as brasas da crença na humanidade, não saberia o que mais teria tal poder.”

    “de…vento”

    Sensacional!

    Abs

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