(não repare, mas…

Começo tergiversativo: não existe mais forte motivo para você reparar nas coisas do que um pedido para que não repare. Por exemplo, ao entrar numa casa, o anfitrião diz “não reparem na bagunça”. Das duas, uma: ou ele notou o passeio dos olhos pelo caos, ou está tudo tão organizado que seria odioso que não notássemos. O caso do título acima combina com a primeira hipótese – vejo os olhos passeando em minhas mensagens e algumas expressões de pobre moço não ditas, mas pensadas.

O fato é que tem acontecido algo muito estranho e meio feioso. Ao digitar uma mensagem e preciso abrir parênteses, quando vejo, já enviei o texto e não fechei os parênteses. Gente, é por isso que se chamam “parênteses”: acontecem aos pares. Um abre, outro fecha a observação. Necessariamente. Tipo as aspas – também no plural porque não andam de modo solteiro neste mundo. E são fiéis, ou você já viu parênteses fechando aspas e vice-versa?

A hipótese que tenho aqui comigo é a seguinte: ando irritado com a onda de pessoas a dispensar o pronome nos verbos reflexivos e pronominais. Não aguento mais ouvir (ou ler!) que alguém mudou quando se mudou, penteou quando se penteou, casou quando se casou etc. Porém, não gosto da posição de vigia do idioma, chato da correção, Joãozinho do passo certo. Então, assumo uma postura agressiva-passiva fazendo o que é também errado na esperança que o outro note.

O problema é que não dá para sacrificar o sentido da frase por uma bravata. Logo, não mexo com os delicados verbos. O que sobra? Bom, lá estão os parênteses dando sopa. Quem sabe bem no fundo eu não esteja esperando que alguém diga que não fechei os parênteses só para responder:

– E os pronomes? Onde andam os pronomes!?

Ah, os caminhos da mente humana, sempre tão estranhos. E olha que para os puristas eu sou um grande relaxado com as regras da língua (mas isso você já reparou…

3 comentários em “(não repare, mas…”

  1. REFERÊNCIAS

    Figura entre meus livros preferidos El viejo y el mar, de Ernest Hemingway. Cito o título em espanhol porque o li em espanhol. Apesar do el mar no título, o narrador na fábula nos explica (eu mal traduzo e destaco), que Salvador “Dizia sempre la mar. Assim é como dizem em espanhol quando a amam. Às vezes os que não a amam falam mal de ella, porém o fazem sempre como se fosse uma mulher.”. Entendo daí o mar no feminino.

    Consulto outra fonte. Descanso os olhos sobre a 29ª edição adaptada da Antologia Nacional de Fausto Barreto e Carlos de Laet. Página 264 aberta, a nota de texto nº 365 dedica-se a explicar a expressão “neste linage = nesta linhagem, nesta espécie de homens. Linhagem, que era masculino outrora, como linguagem, catástrofe, árvore, hipérbole, tribo, ênfase, apóstrofe, mudou de gênero; o que se deu igualmente com mar, fim, planeta, apostema, aneurisma, que eram femininos.” Aprendo daí a árvore no masculino. Reencontro o mar feminino.

    Sigo em marcha lenta a leitura de La riqueza de las naciones, de Adam Smith, edição 1958, Fundo de Cultura Econômica do México. Traduzo e destaco da página 161: “Quando numerosos rebanhos caminham livremente pelo bosque, ainda que não destruam los árboles viejos, impedem que prosperem los renuevos, e assim, ao cabo de um ou dois séculos, a floresta inteira caminha para a ruína.” Reencontro a árvore masculina nos fundamentos de Economia.

    Árbol, árvore em espanhol, é masculino, conferi no Dicionário espanhol-português e português- espanhol, de Idel Becker, São Paulo: Nobel, 11a. edição, 1985. Mar é substantivo – lind(o)amente! – “ambíguo”: de gênero vacilante, (masc. e fem.) no mesmo dicionário.

    Note-se: é relativamente simples mudar o sexo de algo pelo artigo que determina o gênero dado à palavra que dá nome à coisa. Ideias afetadas pela variedade de escolhas alheias, ou para agradar provisórios donos, já não dizem por si mesmas a que sexo pertencem, com qual querem viver e por quanto tempo. Duvidam se são neutras, erram em ter ou não ter sentimentos. Exceção dada aos robôs e aos protótipos – vão com a onda da programação -, todo um universo de criações ainda mal pensou a respeito.

    A palavra palavra, voto nela para finalizar, tem o gênero feminino. Usei o a no início deste parágrafo, sem pesquisar. Os homens fizeram mais uso da escrita no tempo, contudo, e o livro associou a si o artigo masculino. É mera observação, não há revoltas. Amo ainda mais A hora da estrela, de Clarice Lispector, toda vez que reviso o passe de mágica que ela deu para, desapegadamente, transferir a própria escrita para o personagem escritor homem, acabamento que confere perfeição à obra. E é por fazer uso de dezenas de outros artifícios que recomendo Homens elegantes, 2016, de Samir Machado de Machado.

    Ser o seu próprio herói. Ser o herói de alguém. Criar um herói para alguém! Fazer de alguém um herói. A pena permite. Tendo referências na cartola, faça sempre como preferir. Salve todas as heroínas do mundo, trocando o artigo da palavra heroína, quando se referir a droga. Um errinho aqui, outro ali, o povo perdoa. Publique e assine. (Obrigada.)

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