Foto de Isabela Lacerda

O sol brilha lá fora

É bastante estranho eu receber notícias da música brasileira vindas de Portugal. Por outro lado, faz todo o sentido. Primeiro, porque há muitos anos a sonoridade que se formou do encontro das influências europeias, africanas e ameríndias é um ativo de exportação muito valorizado. Depois, como resultado da partida para outros países de determinados músicos, intérpretes e compositores em busca de um lugar ao sol. Aqui, a realidade solar assombra a originalidade.

A fatia mais relevante da produção fonográfica local parece investir somente em clones e, a cada cópia, a qualidade poética e melódica vai se diluindo. Este fenômeno não é novo, mas o problema parece se agravar com os canais de streaming – as rádios ainda variavam seus perfis. Sem conseguir formar um público alternativo ao status quo, busca-se espaços menos opressores ou, no mínimo, mais plurais.

Um recente exemplo é o álbum “Júlio Marotta”, cujo nome evidencia o compositor e intérprete mineiro. Quando escutei seus oito temas pela primeira vez, a impressão que tive foi de uma viagem no tempo. A causa é que, outrora, a sonoridade da sitar, do violão, da flauta transversa, dos violinos e da percussão, em composições a transitar entre o folk e o samba ou o baião, compunham até trilhas sonoras de novela – ápice do consumo popular. Tudo mudou.

A música brasileira há de sobreviver e, com sorte, não somente no exílio.

Numa coincidência curiosa, nascido e formado na região do Barreiro, em Belo Horizonte, Júlio hoje mora em Barreiro, margem sul do Tejo. De lá manda notícias daquele Brasil que viu nascer um dos mais relevantes artistas a influenciar a denominada World Music – Milton Nascimento. Uma nação aberta ao experimentalismo, à criatividade, ao “tudo junto e misturado” que perde força a cada ano, empobrecida em sua cultura antes ampla e diversa.

Lanço o convite para que os leitores conheçam Júlio Marotta. Depois, digam-me se não bate uma nostalgia de quando o encontro com o diferente nos fazia mais ricos e plurais. A música brasileira há de sobreviver e, com sorte, não somente no exílio. Por enquanto, que meus aplausos atravessem o oceano.

2 comentários em “O sol brilha lá fora”

  1. Ótima dica. Não conhecia. Ouvi e gostei demais. Aliás vez por outra ouço artistas brasileiros em Portugal que nunca tinha ouvido falar (e que são muito bons!).

    1. Rubem Penz

      Sim, Marcelo! Há muitos brasileiros na europa (Suíça, Austria, França, Alemanha, Espanha, Portugal…) fazendo um som de muita qualidade – assim como o Júlio. Valeu! Abração!

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