Pop-pop-pop-pop-pop Art

A crônica não tem relação direta com Andy Warhol e sua turma – mas talvez tenha, até porque envolve o número quinze para a contagem de minutos, ainda que não de fama e sim de vexame. A arte em foco não é a plástica: quero falar de teatro. Mais especificamente a experiência recente ao assistirmos a peça “Ponto a ponto – 4000 milhas” na sala do Bourbon Country. Belíssima, aliás.

Volto um pouco no tempo para fins de raciocínio: quando comecei a frequentar o ambiente de teatro, havia algumas noções de etiqueta a serem seguidas. Por exemplo, uma certa formalidade nas roupas, o comportamento mais contido ao circular pelos corredores de acesso e, importante, a pontualidade. Antes do horário marcado, era de bom tom todos estarem devidamente acomodados em suas poltronas. E, iniciada a peça, as portas seriam fechadas.

De lá para cá – e já se vão uns trinta ou quarenta anos – noto em mim e no entorno um pouco mais de descontração. Já não vestimos mais as roupas “de ir à missa ou ao aeroporto”, o volume da conversa migrou do sussurro ao comedimento e, com exceção do Theatro São Pedro, a arquitetura do ambiente perdeu um tanto de glamour. Porém, pensei que a regra da pontualidade seguiria valendo tal e qual, no mínimo por respeito ao artista.

Eis que, sábado passado, quinze minutos depois do horário, pessoas seguiam na busca de seus assentos. E, mesmo depois de atrasarem o início do espetáculo, continuaram a entrar, passando pela frente do palco a atrapalhar a fruição dos demais (e, na certa, a concentração dos atores). Tudo por quê? Por causa da fila da pipoca. Exato: 100% dos retardatários tinham em suas mãos enormes embalagens de pipoca. Pipoca!

Onde andará o limite para o consumo dos grãos de milho? Na Missa do Galo rezada em Roma?

Espero que não seja apenas eu e a Vanessa a considerar o fim dos tempos o hábito de comer pipoca durante uma peça teatral. O farfalhar dos grãos entre os dedos, a mastigação, o movimento dos braços a desviar o foco ou roubar a cena impactam o entorno e, quem sabe, alcançam o palco. Onde andará o limite para o consumo dos grãos de milho? Na Missa do Galo rezada em Roma? Oh, dor. Estou um velho ranzinza…

Editorial: a arte ter ganhado latas de sopa e garrafas de refrigerante pelo Andy e turma foi um ganho enorme – tornar-se popular significa alcançar mais e mais pessoas. Num espetáculo teatral ao ar livre, na praça, diversas licenças serão bem-vindas. Todavia, cláusulas pétreas devem permanecer dentro da sala de espetáculo. Dentre elas, a pontualidade e, por favor, o silêncio e a postura. Para concordar ou discordar, cartas à redação.

15 comentários em “Pop-pop-pop-pop-pop Art”

  1. NHOC-NHOC-NHOC-NHOC-NHOC
    Quero que vocês conheçam a Vá. Vou contar pra vocês as mil e uma coisas legais que eu faço com a Vá, terça sim, terça não. Outro dia fomos viajar e tinha muita gente no restaurante na estrada, resolvemos voltar outra hora. Esta semana, o povo comendo pipoca no teatro. Vocês são um público seleto (exceto por um ou outro fiel, mal educado), sei que vão continuar do meu lado, e da Vá, ao menos nessa questão das pipocas…
    Ai, Rubem, me divirto com você. Desculpe. Sinto muito que não seja recíproco.

      1. João Luiz de Mello

        o próximo passo será um X burguer, cerveja em lata e a pontualidade dos shows do Guns&Roses

  2. É Ruben ainda bem que não vivi tal experiência de pipocas, mas de atrasos sim. Como em mim mora um general daqueles mais rigidos impossivel, tenho tentado ser mais flexivel com os demais. Porém tem coisas que são insuportáveis. Pipoca e teatro não combinam. Eu tambem privo pelo silência e a entrega ao roteiro e atuação artistica. Agora no cinema, tenho que te dizer que sou fissurada por pipoca. Existe uma associação tão arraigada de ver filme e comer pipoca que mesmo em casa tenho que me controlar para não as fazer.

    1. Rubem Penz

      Tá bom, tá bom! Cinema liberadaço para pipocas (e, em casa, mais ainda). Permissão para terminar o agradecimento, General. 😉

  3. MIRIAM T BALBINOT

    Não poderia concordar mais contigo, Rubem.
    Teatro requer um mínimo de rito. Chegar antes do início da peça faz parte dele.
    Pipoca no cinema virou tradição, mas mesmo neste caso não há salvo-conduto para ruído em excesso. Tem gente que confunde comer pipoca durante o filme com piquenique no parque.
    Agora… Pipoca no teatro não, né?

      1. Rubem Penz

        Né? E há quem imagine ver o fim do mundo com um pacote de pipoca na mão… Abraço, meu premiado amigo!

  4. As cláusulas pétreas de educação são sempre necessárias. Se os artistas se preparam tanto para nos ver, deveríamos fazer o mesmo. Ri alto sobre o limite dos grãos de milho. Rubem, você alegra os meus dias!

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