Segura o ônibus!

A cena que vi do carro muito me comoveu. Primeiro por seu desfecho revoltante. Depois, porque trouxe lembranças tristes. Quando aconteceu, eu estava diante do semáforo para travessia de pedestres na altura da parada Faculdade de Agronomia do corredor de ônibus da Av. Bento Gonçalves. Era meu o primeiro carro da fila e, por isso, a visão era privilegiada. Descrevo:

Quase ao meu lado, uma moça que vinha lá da outra mão entrou na calçada da parada correndo. Levava uma mochila e, presumo, nela havia bom peso – o que atrapalhava bastante o deslocamento. Lá na ponta oposta havia um ônibus e, nele, entravam os passageiros. Ela correu, correu, correu e, ao chegar na porta de embarque, ela se fechou e o ônibus partiu. A moça ergueu os braços em abano. Ele não parou. As mãos desceram até a cabeça como quem diz: “Não acredito!”. Eu também não acreditava.

De todas as paradas de ônibus da minha vida, as mais temidas eram aquelas perto das esquinas onde eu chegaria de uma via lateral. A dor de ver o coletivo passar diante dos meus olhos um pouco antes de eu ter ângulo para vê-lo era lancinante – mais ainda quando já estava com o horário apertado para uma aula ou, pior, perto da meia-noite, a indicar, talvez, o último do dia. As de “meio de quadra” com frequência permitiam uma corrida providencial.

Minha revolta com a cena desta semana foi ter visto a tal corrida. E um motorista jamais deveria fechar a porta sem consultar o espelho retrovisor, aquele no qual a passageira apareceria. Qual compromisso seria perdido por ela? Quanto tempo até passar o próximo? Muita agonia a ser poupada por uma condução diligente, pelo sentido de servidor que faltou ao motorista. Os passageiros são a razão de ser da empresa e de seus funcionários. Clientes para bem atender.

Logo depois, meus pensamentos trocaram de foco: eu não ouvi a moça gritar alertando sua chegada. Não gosto de culpar as vítimas. Porém, a vida lhe deu uma oportunidade. Se as pessoas subiam no coletivo (e subiam, eu vi), um providencial berro de “Segura o ônibus!” talvez fosse suficiente para o último passageiro (futuro penúltimo) fazer aquele corpo mole, um pé no degrau e outro na calçada, capaz de dar o tempo certo ao retardatário. Muito fiz isso, pessoal.

No verde, arranquei e logo cruzei pela moça, naquele momento apoiada em seus joelhos num misto de cansaço e decepção. Cheguei a emparelhar o carro com o ônibus para ver a pessoa infeliz que o conduzia. Um homem sem coração. E pensei se haveria alguma lição a se tirar, uma moral na história. Só me veio à mente a certeza de que a vida, antes de ser justa ou injusta, não é moleza. E é muito mais dura com os menos favorecidos. E aos idiotas que buzinam atrás de nós por dois segundos de demora ao arrancar o carro, como seria bom perder um ônibus ou dois nessa vida.

10 comentários em “Segura o ônibus!”

  1. Venâncio Zulian

    Beleza de Crônica. Ao contrário da atitude do Motorista. Mas também a gente não sabe se ele fez por querer. Bom, só o cronista vê isso. Ainda bem que ele existe! (eles existem). Abs

    1. Vamos dar ao motora o benefício da dúvida, então. Contra a minha vontade, mas, tudo bem! Valeu, Venâncio!

  2. Ataíde Menezes

    Ah! Meus tempos de estudante… Já perdi muitas corridas para ônibus, caro Rubem. Concordo em gênero, número e grau com suas reflexões. Belo texto!

  3. ADRIANA STEIN DA SILVEIRA

    Perfeito! Me vi nesta triste aventura, muito passei por situação assim na época da faculdade. Não sei não, se adiantaria gritar, na verdade a gente já está sem fôlego para pedir a piedade do motora.

    1. Adriana, seu comentário é perfeito: sem fôlego, como gritar?
      Reforça a tese de que a culpa nunca é da vítima.
      Abração!

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