Violência, esgrima e xadrez 2 – o outro lado

Cidade maravilha, purgatório da beleza e do caos

Fernanda Abreu, Fausto Fawcett e Laufer

Irmão, nosso embate é na lentidão do xadrez e na batalha relâmpago da esgrima.
Os deslocamentos no tabuleiro e os golpes no beco obedecem à mesma lógica: quem dita o ritmo, vence. Guarda, ataque, defesa, contra-ataque e antecipação — também jogamos esse jogo, mas com uma vantagem que eles nunca terão: não seguimos regras, criamos as nossas.
Enquanto eles medem o golpe pela lei, nós medimos pelo resultado. O tempo que perdem pensando no certo, nós usamos para agir. No meu tabuleiro, o florete é fuzil — e o relógio, o medo.

Vencer o jogador que pensa enquanto leva tiro é simples. Conquistar o tabuleiro antes que ele perceba que o jogo mudou, mais ainda. Eles ainda acreditam nas mesmas regras. Enquanto tentam corrigir desigualdades, criar oportunidades, investir em escola, cultura, ética e valores, nós ocupamos o vácuo.

A escola ensina o verbo; nós ensinamos o desejo. Eles alfabetizam; nós seduzimos. O funk, o filme, a gíria, a roupa — tudo aula. Nossos versos andam mais rápido que os livros deles. Eles planejam orçamentos; nós compramos silêncio. Eles falam em leis; nós escrevemos as nossas — na boca da pistola.
A prisão que sonham corrigir é nosso escritório remoto. Quando falam de gravidez indesejada, já recrutamos o filho — sem pai, sem futuro.

Neutralizar quem se julga acima do perigo é tarefa de esgrima e de xadrez — e dominamos as duas. Eles celebram a “função institucional” do policiamento.
Nós sorrimos. Enquanto correm com sirene e papelada, já ocupamos os bancos, os gabinetes, os corredores do poder, as salas de audiência — é lá que o dinheiro sujo lava a alma limpa. O tempo é recurso: há quem mate na esquina e quem mude a regra sem disparar. Bala contra bala quando convém; conta fechada e voto comprado quando é mais eficaz.

Prisão? Se convier. Morte? Também. Horrível? Para quem ainda pensa em horror como fragilidade, talvez. Cadáveres são nosso adubo.

A violência é fato — e nós a manejamos melhor. Duas disputas: xadrez e esgrima — as duas são nossas. A lei é lenta; o tempo, nosso. A desigualdade? Terreno fértil. Eles falam em estar do lado certo. Nós rimos: não existe lado certo quando o jogo é comandar. Nem direita, nem esquerda — nosso poder vem do invisível subsolo, por onde nossas raízes não escolhem lado, alastram-se.

Vidas a proteger?
Sim, irmão.
As nossas.

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Violência, esgrima e xadrez

2 comentários em “Violência, esgrima e xadrez 2 – o outro lado”

  1. Anabela Rute Kohlmann Ferrarini

    “É lá que o dinheiro sujo lava a alma limpa”. É preciso dizer mais? Um texto atemporal, infelizmente. Quase uma década de sua publicação primeira e nos vemos nesse mesmo lugar. Uma provocação, é o que é. Muito bom.

    1. Obrigado, Anabela. Nasceu da inquietação: e o outro jogador desta disputa, o que estará pensando?
      Abraços

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