Há cafés da manhã em ritmo de bossa nova, samba, frevo ou rock. Há cafés muito punks. Domingos pedem cafés no andamento de uma valsa.
A valsa passeia solene no salão do tempo. Não há pressa, compromissos imediatos, horários limitantes. Ao contrário, a manhã é um vestido amplo que se abrirá em revoadas ao girar dos ponteiros. E o condutor, se hábil, há de percorrer todos os espaços que o sabor oferece.
Recorrer a frutas cortadas em cubos regulares, deixar o pão reacender o sabor num volteio pelo forno, dispor os frios em camadas, acariciar a manteiga com a faca, mexer os ovos de modo ritmado – tudo a seu tempo.
Para beber, suco de frutas? Café com leite, esse par que é tão melhor quanto mais precisas são as proporções. Há quem prefira adoçar, há quem escute na adstringência certa o sabor da vida, da relação, do mistério.
Vestir a mesa ou a bandeja é outra arte: louça caprichada, talheres reluzentes, vidros – cristais? – brilhantes. Já não há a necessidade de guardanapos de linho, mas um papel de absorção certa e brancura asséptica garante a sobriedade.
Até o instante de servir, manter frio o que é frio, quente o que é quente. É uma arte desfilar os passos dos processos de modo a atender a temperatura certa de cada sabor. A crocância, a maciez, consistência por consistência.
É quando a valsa abre sua parte B: terminado o preparo, vem o servir. Deixar os aromas abrirem as portas do grande salão dos sentidos, mãos dadas com a aparência. Depois, como quem beija, capturar os sabores.
Em casa, sou o maestro das manhãs. E recorro à valsa para a refeição que abre o domingo. Além do andamento mais lento, das notas mais longas e da roupa de mesa ser mais solene, há mais prazer na execução da obra.
Outra parte “valsa”? Nossas manhãs são ternárias: eu, Vanessa e Agatha.
Perfeição.
*Crônica escrita para a música “Valsinha da Eva”, de Jorge Gerhardt, durante o módulo Musaico

