O que pode e o que não pode

– Vai, aproveita e fala sobre o tema.

– Qual tema?

– O que aconteceu. Vai, vai!

– Falar o quê?

– Fala que não pode, claro!

– Não pode o que aconteceu ou falar de tudo o que não pode?

– O que aconteceu.

– Certo, é, não pode. Posso dar um panorama que explica o que não pode?

– Não pode.

– Por quê?

– Porque com o panorama alguém poderá pensar que pode.

– E não pode…

– Não pode.

– Certo, é, não pode. Posso começar imaginando outro cenário para corrigir o que já não podia e que, se fosse deste outro jeito, aconteceria de…

– Não! Nada de cenário, nada de panorama, nada de contexto, nada, nada, nada. Só o que aconteceu e que não pode.

– Por quê?

– Porque precisa ser simples: pode ou não pode.

– E não pode.

– Isso, não pode.

– E se alguém perguntar o que mais não pode?

– Aí diz que não é a hora de falar sobre o que mais não pode, só sobre o que aconteceu e não pode.

– Perfeito. Começo com tudo, então: já no primeiro parágrafo, digo que a Agatha sumiu quietinha por uns minutos e usou em si as maquiagens da Vanessa. Isso não pode…

– Peraí, era nisso que você estava pensando?

– Ué, claro: naquilo que aconteceu e não pode! Ou pode?

8 comentários em “O que pode e o que não pode”

  1. Anabela Rute Kohlmann Ferrarini

    Hahahaha, mestre, adorei! Pode escrever mais crônicas assim, que nos arranquem sorrisos e risos até!

  2. Genial! O contexto histórico atual nos conduz para outro tema e a surpresa nos pega direitinho ao final. Aliás, esta sua crônica é uma aula de subgênero e escolha estilística/formal. Delícia de ler e ótima para fomentar reflexão.

    1. Obrigado, Cristina! E, sim, ela depende do momento em que foi publicada para funcionar. É a primeira crônica anedótica que faço na qual nem o tema disfarce, nem o ocukto, estão visíveis. Obrigado, abraços!

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