Não tão cedo

Tenho uma garrafa térmica dedicada ao mate. Ela é metálica, tamanho médio, com aquele sistema de abrir no qual apertamos a tampa, ela libera a água, apertamos novamente e ela fecha. Muito comum nos parques e praças porto-alegrenses.

Não consigo saber sua idade aproximada. Nova, não é: já estou na terceira tampa, a parte que estraga mais rapidamente. E, semana passada, o encaixe da alça quebrou. Vou usar sem alça, pensei. E assim foi feito. Porém, ela se tornou insegura – primeiro, por ser lisa; depois, por ficar um pouco quente quando colocamos a água.

Tudo indicava seu fim. Pensei: não tão cedo.

Havia um segundo encaixe para alça, mas a alça original era pequena. Olhei bem e decidi colocar no lugar da alça original uma fita. Medi, passei a fita, dei um nó duplo cuidando para ele ficar “por dentro” – até gambiarras precisam de um mínimo de senso estético – e fiz o teste de uso. Funcionou. Segue funcionando. Custo? Próximo de zero.

Inventividade não nasce do nada. Antes, é necessário ter a iniciativa e, para isso, o melhor caminho é ter visto acontecer. Meu velho pai era muito resistente ao descarte no primeiro sinal de problema. Dava seu jeito. E, quem cresce assistindo as mais estrambólicas improvisações, fica com o germe da criatividade inoculado.

Um dia precisarei descartar a garrafa térmica, eu sei. Duas tampas, bem como sua alça, já ganharam o destino do lixo seco (coisa que meu pai não faria). Sei lá, tais urgências me lembram que não passo ileso ao tempo. Não tenham pressa – ainda sirvo. Calor, aliás, é comigo mesmo.

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