“(…) quem guarda, se lhe derem de presente,
a caneta e o isqueiro que não mais funcionam (…)”
Paulo Mendes Campos em Pequenas ternuras
Nas quartas-feiras, quase todas, eu e o Ivan almoçamos na casa da dona Isolde. Três gerações colocando estômago e coração em dia. Sempre saboroso, amoroso sempre. É uma bênção chegar aos 86 com autonomia, lucidez e disposição – tomara que eu esteja assim quando chegar lá. E hoje quero falar de algo muito curioso acontecido no último encontro.
Lá pelas tantas, numa conversa de rotina, a mãe trouxe um assunto recorrente: as tantas coisas que têm em casa e que ainda precisam ser repassadas a filhos e netos com o eterno plano de mudar-se para um lugar menor (quer e não quer). Em suas palavras, “tenho coisas com mais de 65 anos, ganhadas de noivado, e que nunca usei”. Ou seja, um precioso legado de objetos bem pouco urgentes. Muito fofo.
O noivado, gente, é (era?) momento de enxoval. O mínimo que se espera neste instante é atender à demanda que se avizinha – casa inaugural, rotinas da nova família, utilidades domésticas. Como alguém pode errar o alvo com tanta competência: ofertar o dispensável por seis décadas? É preciso talento. Ou – será? – lançar mão da arte de repassar o que se ganhou e estava no fundo do armário, ainda na caixa. Chego a ver a cena:
– Solange, já comprou o presente? É amanhã o jantar com os noivos…
– Ainda bem que você lembrou! Preciso providenciar o papel de presente, benzinho.
– Ué, na loja não embalaram? O comércio anda cada vez pior…
– Ó, uma baixela de cristal.
– Hummm… Temos uma dessas, né? Presente de quem, mesmo?
– Da tia Sarita. Que Deus a tenha.
– Tia Sarita! Só podia. Refinada, ela…
– É, né? E, no leito de morte, me confidenciou: ganhou a baixela de noivado.
– Não!? Quem faria uma coisa dessas?
– Veja você! Hoje acendo uma vela para tia Sarita de abençoada memória.
– Só cuida para não servir nada na baixela igual quando vierem aqui em casa, tá?
– Pode deixar. Garantido…
Claro que o legado da dona Isolde é original. Só me faltará ter papéis de presente.
Híbrida


Sensacional!
“Como alguém pode errar o alvo com tanta competência: ofertar o dispensável por seis décadas? É preciso talento.”
É preciso muito talento para tal!
Nessas horas agradeço ter vivido outras épocas de relacionamentos…
Hahahahahaha! Nem um cinzeirinho de cristal, Altino? Não acredito!
Abraços!
Esse legado já está embrulhado de afeto e lembranças e o papel foi desempenhado com maestria.
Muito obrigado, Sonia!
Carinho enorme, Rubem
Geniaaaaalll!!!
Perceção fina. 👏🏻👏🏻👏🏻
Fina como a porcelana do conjunto de chá, Tati!
Obrigado, abraços!