Imaginem um podcast no qual o microfone é cenográfico e a gravação, quando houve, foi de celulares ali presentes, porém, desconectados. Um podcast presencial e analógico. Ou seja, um podcast cuja única semelhança com o termo é sua raiz: a conversa entre duas ou mais pessoas com plateia.
Exatamente isso foi o que aconteceu sexta-feira passada no Espaço Cultural Mosaico para um público de cronistas da Santa Sede e seus acompanhantes. Você não soube? Sinto muito, não divulgamos extramuros – foi quase uma atividade experimental. E o que sentimos foi a chance de acontecer mais vezes, com melhor estrutura e planejamento. Quem sabe até com transmissão e, desta forma, ser um podcast.
Estava muito bom!
De tudo, o que emergiu com maior força foi o relacionamento humano. A boa e antiga arte do encontro, das trocas, da presença inteira e tridimensional. A chance do abraço, da leitura corporal, do mundo deixado lá fora por duas horas – preferencialmente com as telas apagadas. A abordagem de um tema que nos une – a crônica – como ponto de partida para pensarmos em tudo o que mudou e no nada que mudamos.
Exatamente como é a Santa Sede. Quando me perguntam se há ganhos de técnica e de qualidade na escrita, a resposta é sim. O peculiar no processo não é vir a diferença – a evolução – por causa do fato de estarmos num bar, muito menos apesar desta circunstância anárquico-pedagógica. Acontece o bom e velho “enquanto”. Fundamentos absorvidos de modo orgânico no substrato mais importante desta arte de retratar o cotidiano: o corpo a corpo. Tim-tim por tim-tim.
O que disse nos faz parecer clubes fechados, sociedades secretas, irmandades? Pois é exatamente o contrário: ocupamos o bar aberto, publicamos livros e promovemos cursos até para quem nunca se imaginou escrevendo. Melhor: a cada ano, vemos nascer tradições, piadas internas, novas amizades; quem cumpra um percurso em quem nunca mais deixe a mesa, ampliando a teia de amizades.
Sexta-feira tivemos a presença de sumidos, esporádicos e frequentes. Um podcast com alcance de poucos metros quadrados. Todos conversando sobre literatura enquanto se divertiam, se implicavam e redescobriam o valor inestimável do calor humano. Ajudados pelo fogo na parrilla, é claro.

