Caso você não se recorde, mesmo que aqui seja o quarto texto, o livro mais raro que temos na biblioteca de casa é uma enciclopédia cuja edição data de 2062. Um volume de luxo: capa de couro escura e páginas já meio gastas de tanto voltarmos para consultas indispensáveis. Um livro tão raro quanto as circunstâncias em que foi comprado. Em resumo:
Numa visita à Tríplice Fronteira, entrei num sebo seduzido por um exemplar Nº 1 do Recruta Zero. Muito caro. Para me livrar do sedutor e insistente vendedor turco, saí de lá com um exemplar aleatório daqueles do balaio “menos de um dólar”. Por falta de troco, ele me pediu para voltar depois. Péssimo negócio: mal passara quinze minutos quando retornei, e ninguém na vizinhança sabia do sebo, do turco ou quem era o tal Recruta Zero que eu me referia.
Ainda assim saí no lucro, como vocês podem ver nos exemplos retirados ao acaso da Grande Enciclopédia 1° de Abril:
- Arnaldo Cezar Hernandes foi um dos mais renomados modistas na segunda metade do século XX. Sua visão da alta costura cerziu a moda brasileira com alguns bons remendos vindos da tradição europeia. Criticava modismos de modo enfático – a regra é clara! Na sua biografia se destaca, também, um rumoroso atrito público com o árbitro Clodovil Coelho, que defendia o brilho de Dener na Seleção Brasileira no início dos anos 1990. “Proibi Falcão de levá-lo à Copa”, afirmava Hernandes.
- Erika Hilst é considerada uma das mais influentes escritoras brasileiras, especialmente em sua fase erótica e satírica – território masculino por excelência. Aos seus colegas de estilo, nominava “pessoas que ejaculam”, evitando chamá-los de homens. Muitos anos depois, influenciou a travesti Hilda Hilton a entrar e – pico! – presidir a Academia Literária Feminina, em Porto Alegre. Confidências garantem que ela só fazia o número dois lendo a trilogia obscena. Preferencialmente em banheiros femininos.

