Nunca esteves, sempre Esteves

Com o avançar das décadas, algo inescapável acontece: despedidas. Serão tantas quanto mais vivermos. Algumas naquela categoria lamentável: as prematuras. Outras, ainda que profundamente sentidas, farão parte do ciclo da vida. É onde estão nossos avós, tios e pais – a geração que chegou e partirá antes. Neste grupo estão nossos professores. Por exemplo, o professor Esteves.

Esteves foi meu professor e meu Assistente no Colégio Anchieta. Um dos mais marcantes. Posso não ter sido bom aluno – aliás, meus boletins que estão guardados em algum lugar confirmam que não fui. Porém, fui um bom observador. E reparar naqueles adultos estranhos cuja vocação e rotina eram suportar alunos como eu, ainda que nem tenha sido dos piores, ajudou a formar o professor que me tornei. Também o escritor.

O que sempre me chamou a atenção é a variedade humana contida numa sala dos professores. Há novatos e experientes, altos e baixos, magros e gordos, severos e camaradas, arrogantes e acessíveis, simpáticos e carrancudos. Fico aqui: desde cedo na vida, notei que simpatia e sisudez, entre todas as dicotomias, eram as mais curiosas. Tempo de magistério, altura, morfologia corporal são constantes inalteradas fora da cátedra – uma pessoa alta não se torna pequena quando a encontramos no supermercado. Os traços de humor estão em outra categoria.

Tive a honra de estagiar como professor de Educação Física no colégio onde estudei. E, como me formei aos 21 anos, os mestres estavam todos lá. Aquilo que eu intuía se confirmou: muitos, quase todos, vestiam uma máscara de seriedade para manter a turma sob controle e, ao mesmo tempo, eram bem-humorados, afetuosos e extremamente empáticos por detrás. Anos depois, na qualidade de escritor convidado, frequentei a sala dos professores esperando o momento de dar uma palestra e, entre um café e outro biscoito, pude notar ser uma constante.

É quando chego ao Esteves. Este, nunca me enganou. Havia nele um sorriso discreto e revelador: inteligente como poucos, sabia conduzir o grupo com autoridade desarmando adolescentes só na malandragem. Sua voz jamais subiu e, até por isso, tornava difícil desafiá-lo. Não era um dos professores fantásticos, um dos performáticos, um dos carismáticos. Fazia parte do grupo dos enigmáticos. Aqueles que o aluno precisará sair do colégio para entender – o que exige muitos anos de análise.

Perdi completamente o contato com o Esteves, e só soube de sua morte porque faço parte de grupos de ex-colegas. Não fui seu melhor aluno. Mas prestei atenção.

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