Fé por fé

Uma das mais estranhas maneiras de acompanhar os grandes temas da Igreja Católica é criar uma oficina literária chamada Santa Sede e colocar este nome numa busca automática de notícias. Sim, sim, sim: parece sacrilégio santificar a sede pela crônica de botequim – mas garanto que é no sentido laico do termo, mais ligado à busca de aprimoramento, à liturgia criativa. Também existe como leitura paralela a tal sede como endereço, nada desprezível quando se pretende criar escola. Ser católico também ajuda: resolvemos as coisas em foro íntimo, eu e Deus, Aquele que conhece minhas virtudes e pecados.

Como para mim é importantíssimo conhecer qualquer matéria que venha a repercutir o que fazemos nas mesas de oficina, jamais negligencio a mensagem da busca, ainda que “Santa Sede” leve mais a Roma do que para Porto Alegre. Por isso, e ainda que eu leia mais as manchetes do que as notícias, passando pelas notas dá para mapear os passos do Vaticano, sentir seu ânimo. E o melhor: conhecer o jeitão do novo Papa. Nem tão novo assim, e aqui está a parte do tema que nos interessa.

Robert Francis Prevost, Leão XIV, é o segundo das Américas a ocupar a cadeira de Sumo Pontífice – sucede a Jorge Bergoglio, argentino. Um agostiniano, outro jesuíta. Ambos, missionários e fortemente ligados a formação. Ele não chegou ao conclave bem cotado e, para muitos, foi uma opção chamada de segura, nem muito conservadora, nem muito progressista. Uma opção mais em busca de consensos do que determinadas correntes desejavam. A Santa Igreja Católica não é imune à política.

É aí que trago um dado interessante: assim que morreu o Papa Francisco e houve a escolha do novo Papa, havia muitas notícias vinculadas à Santa Sede. Porém, logo depois, houve uma baixa perceptível a qual durou meses. Muito aos poucos, a frequência com que a assessoria de imprensa do Vaticano chegou a mim retomou patamares anteriores e, hoje, está nos níveis de costume. Este percurso diz muito sobre Leão XIV.

Francisco era muito requisitado a opinar e sempre disposto a fazê-lo – traço de personalidade. Robert, ao que posso depreender, entra nos temas sem alarde. Sua força talvez seja mais sentida em bastidores e menos nos microfones. Por isso, colocou muita água na fervura midiática sem necessariamente apagar o fogo da panela. Lá atrás, fiquei bastante impressionado com o movimento de retração. Agora reconheço sua opção e passo a acompanhar seu papado. Muito prazer, Robert! Sou Rubem, seu colega de Santa Sede (quem cuida do clipping da casa deve ter visto meus vestígios).

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