Quero falar da série Slow Horses, Apple TV+. Porém, há uma digressão importante a ser feita. A última novela que acompanhei com entusiasmo foi Império, Rede Globo, 2015. E, no seu princípio, vi Othon Bastos aparecer como o mordomo Silviano. Falei para a Vanessa: ninguém escala Othon Bastos para um papel menor – ele é mais do que parece. Sim, há muito perdi a fruição desprovida de análises (às vezes isso nem é bom).
Assim, escalar Gary Oldman é prenúncio de um personagem nascido para entrar para a história e, sim, Jackson Lamb é inesquecível desde a primeira cena. Mick Herron foi feliz demais em demonstrar as entranhas do sistema – na trama o glamuroso MI5 – mais como o intestino do que como o cérebro ou o coração. A escatologia tornada evidente não é gratuita: é escolha. É a personificação do que ninguém assume ser quando falhar a educação, o controle, o asseio.
Adorável é conhecermos o desconfortável ambiente de trabalho da Slough House, escritório dos agentes fracassados do MI5, pela chegada de River Cartwright (Jack Lowden), um belo, jovem e voluntarioso agente cujo sobrenome traz linhagem – neto de um lendário diretor da agência. Sua apresentação para o público é uma mistura de Agente 86 com Missão Impossível: como Maxwell Smart, se envolve numa confusão de cores entre a blusa e a jaqueta do suspeito; como Ethan Hunt, atravessa um aeroporto inteiro correndo para evitar um atentado. O problema é que chega tarde. E falha.
É da relação entre os dois protagonistas que o enredo revela seu brilho: de um lado, a fadiga de quem sabe demais, viveu demais, decepcionou-se demais – está apodrecido de saber. De outro, alguém que deseja crer no sistema (pois tem o avô como mentor), é sagaz, dinâmico, vívido e, ainda assim, descartado pela própria instituição. Seu pecado: para um agente iniciante, não há para quem delegar uma culpa. Aliás, é o que mais se vê na história, aproximando uma agência de elite a uma repartição burocrática.
Quando um desalinhado, sujo, fumante, alcoólatra e desprezível líder coloca seus pés sobre a mesa a ostentar uma meia furada, personifica um dos nossos mais profundos medos: descobrirem que falhamos. Quando um jovem suporta ser humilhado por um líder que não demonstra grandeza, outro dos nossos maiores medos se faz presente: obedecer – respeitar, deixar-se guiar – nem sempre será uma escolha fácil.
Onde está o encanto de Slow Horses? Lamb e River são afetivos, fiéis, íntegros. Honestos até onde é possível ser assim entre espiões. Enquanto isso, os ternos alinhados, as meias de nylon, os cabelos impecáveis e os modos perfeitos da Thames House, sede do MI5, escondem muita podridão.
Não ouse fechar o nariz. O ruim, aqui, é o melhor.


Muito bom!
Obrigado, Silvia! Beijos