Donald bateu lá em casa

Lindo escrever sobre os destinos da humanidade e sobre as ações dos líderes políticos e sociais. Olhar o passado com distanciamento e analisar o que cada diretriz de grandes personagens — para o bem e para o mal — deixa como rastro. Confortável, também, pois não bate “lá em casa”. A questão é que, num mundo cada vez menor, decisões distantes sentam-se no nosso sofá e puxam conversa. Pior: determinam o destino.

Um exemplo íntimo: minha irmã mais velha, nascida no Brasil, é cidadã norte-americana. Tem uma esmagadora parcela de vida em solo gringo, foi professora e é pesquisadora com trajetória de respeito, escolheu viver lá por ser casada com outro professor e pesquisador. Poderia ser facilmente encaixada numa das nossas fragilidades — sermos exportadores de cérebros pela incapacidade de ter um espaço de excelência científica em grande escala. Ou, simplificando, aconteceu de ser seu destino.

Minha mãe é uma senhora octogenária. A partir das decisões de minha irmã, conviveu com ela em visitas mais cá do que lá (viajou uma única vez, e falar sobre a experiência é um dos seus prazeres). Amam-se. Quando juntas, compõem uma troca de afeto mais valiosa do que qualquer bem ou luxo ou posse. Abraçar minha irmã é importante para todos nós, mas tornou-se mais urgente na medida em que o tempo avança — quantos anos mais de vida tem a dona Isolde? Eu aposto muito em sua longevidade quase como quem deseja essa herança.

Bom, as novas diretrizes de imigração de Donald levaram minha irmã a uma decisão inescapável: vir ao Brasil, neste momento, pode trazer problemas no regresso. Ninguém prudente dirá que o risco é baixo, pois vemos distorções acontecerem aos montes quando não há muita sensibilidade ao caso a caso. Imigrante? Primeiro retalha, depois discute. Na salinha de entrada, somos todos iguais. Desiguais.

Sem ser convidado, Donald passou lá em casa (quem ainda tem a casa dos pais sempre diz lá em casa) e disse para a mãe: talvez me interesse saber de sua filha, ok? Perdão, senhor Presidente — em nossa casa, somos nós que fazemos as perguntas.

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