E se?

Toda hipótese retrospectiva é falha.

Por isso, toda hipótese retrospectiva é perfeita.

Basta a alteração de um ato para reconfigurar o futuro inteiro. Esse enredo já foi explorado com muita competência pela ficção – eu mesmo lembro de belos, trágicos e divertidos filmes e séries sobre viagens no tempo. Neles, o usual é focar em uma decisão impactante ou num acontecimento fulcral, redesenhando todo o quadro a partir de uma diferença basilar. Propositalmente, esquecemos que sair trinta segundos mais tarde do que o usual – um nada – pode representar a vida e a morte no trânsito, por exemplo.

Esqueçamos as hipóteses, então? Jamais. Elas existem para tomar as próximas decisões.

Montar cenários faz parte do balanço habitual depois de um insucesso. Boas ou más, certas ou erradas, as decisões, todas elas, geram consequências. Tendemos a focar nos equívocos para deles tirar lições – o que resta de virtuoso em um fracasso. Não necessariamente imaginando que outra escolha seria redentora, e sim porque haveria a chance de êxito, dado que o errado já aconteceu. Fazer diferente, nestes casos, não é fazer melhor, é só não fazer pior outra vez.

E onde está a perfeição no “e se”?

Está em assumirmos o peso das decisões para mudar o futuro. Ao contrário do senso comum, a falha modificada hipoteticamente não pode servir de conforto. Ela deve ser um alerta para que as próximas ações sejam pensadas de outra forma.

Por exemplo, no pênalti perdido contra a Noruega, a decisão foi por estatística (disse o Ancelotti). Mas estatística não faz gol, quem faz gol é o jogador. Não sei em que circunstância Bruno Guimarães converteu outros pênaltis, sei que o peso de oitavas de final de Copa do Mundo é outro.

Mas, e se fosse Vini Júnior quem tivesse perdido?

Essa é a pergunta errada.

A melhor é: e se não estivermos treinando o fundamento mais decisivo de uma partida com a ênfase certa? Mais: caso o critério para a escolha do batedor seja aprimorado, mudará alguma coisa?

O “se” perfeito não modifica o passado. Muda o futuro.

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