– Péricles, não aguento mais tanta falta de originalidade, tanto reforço de estereótipo!
– Ué, Cadu, o que houve?
– Acho que vem ferramenta de Dia dos Pais outra vez. Ou furadeira, parafusadeira elétrica, soldador, uma encrenca dessas…
– Como você sabe?
– Tinha um tíquete do estacionamento da Leroy Merlin no carro.
– É, meu velho. Não basta ser homem, precisa saber consertar as coisas…
– Contratei um seguro pra isso. Que me pagasse a anuidade de presente. Ou fosse criativa. Meu velho uma vez ganhou a assinatura da Playboy. A mamãe sabia das coisas.
– A Sandrinha é pior: só me dá apetrechos de cozinha desde que assumi uma postura participativa. E fica cobrando o uso.
– Taí uma verdade: depois de virar papai, todo agosto é a mesma coisa…
x – x – x
– Sandra, comprei um perfume maravilhoso pro Carlos Eduardo de Dia dos Pais.
– Ué, ele não curte “presentes de homem”?
– Cansei, sabe? Da última vez me puxei. Abriu o pacote, olhou bem sério, odiou e disse “dá esse jogo de brocas pro seu pai”, que ele era de outro tempo e coisa e tal. Eram importadas, caríssimas!
– E você obedeceu?
– Claro, e o papai amou! O pior é que tive que passar na ferragem ontem pra comprar uma broca. A de oito milímetros de casa tá queimada, cega, e eu preciso colocar umas prateleiras mais robustas na área de serviço.
– O seu pai sabe que é você quem faz isso?
– Sabe. E acha o Carlos Eduardo um inútil, um folgado.
– Ao menos o meu Péricles sabe cozinhar. E adora panelas novas!
– Sorte sua, sorte sua…

