Escuto rádio pela manhã. Eu, não: muita gente. Talvez seja, com o final de tarde e a madrugada, a mais apreciada das partes mais nobres deste boi de FM (outrora em outras ondas, hoje pouco visitadas). Rádio matinal é companhia qualificada: pode nos poupar de um engarrafamento, ajudar na decisão sobre roupa ou guarda-chuva, informar sobre as más notícias tão necessárias, ainda que distantes de nossa capacidade de combatê-las.
Hoje (mais precisamente o ontem da publicação), o rádio esteve animado. Desabou o mundo sobre o Rio Grande do Sul em geral, Região Metropolitana da capital também. E sobraram notícias sobre alagamentos, árvores caídas, falta de energia elétrica e outras consequências de temporais. Costumo me compadecer da reportagem: não é fácil cobrir a editoria da cidade. E uma e duas e o fantasma da enchente de 2024 nos assombra.
Por isso, gostaria de verdade de conversar com o Paço Municipal e com a Câmara de Vereadores: não dá mais para tapar a chuva com a peneira. Os ventos mudaram e a cidade precisa olhar para si, não para as nuvens. Culpar a chuva já não cola. Que entrem em acordo: o que pode e deve ser feito com a nova condição climática.
OK, em alguma medida isso vem acontecendo. Não fosse o conduto forçado da Álvaro Chaves, muitos bairros alagariam. Mas é pouco. Precisamos olhar para nossas árvores e replantar espécies que sejam de menor porte e menos sujeitas a quedas – também fazer delas um patrimônio controlado, correto para sombrear e embelezar e adequado para a segurança das pessoas e do patrimônio. Também investir em limpar bueiros e conscientizar sobre essa sujeira evitável.
Quem mora em encostas, deve conseguir sair para áreas seguras, e a quem não mora em lugar nenhum não deve servir a encosta de opção. Nossas ilhas precisam ganhar palafitas, se a comunidade não quer sair dali. Pouco a pouco, os fios devem deixar os postes – que comecem por poucos quarteirões e, ano a ano, avancem em movimentos radiais. Que a companhia de circulação e trânsito esteja a postos para organizar as esquinas sem semáforos. Vamos só no básico.
Candidatos a futuros cargos legislativos e executivos, escutem rádio pela manhã. Provavelmente estarão confortáveis, quentinhos e secos como eu também estou. Com isso, saberão que o novo normal é úmido e desconfortável.

