Salva de palmas

Digamos que você almeje um papel de destaque. Não: protagonismo absoluto. A peça é mundialmente conhecida e, a cada apresentação, o roteiro é inédito – adaptações de adaptações de adaptações ao infinito. Não há diretor, não espere iluminação perfeita ou trilha sonora determinada. Objetos cênicos? Muitos, ora indispensáveis, ora inúteis no transcorrer do enredo. Outros atores estarão com você e nem eles poderão dar a deixa certa – como você, improvisarão. Mais: caberá a você mantê-los por perto ou mandar saírem de cena caso estejam mais atrapalhando do que sendo úteis. Prerrogativas de protagonista, liberdade para monólogos, às vezes autoproteção.

Agora você será mãe.

Há quem diga que você nasceu para estrelar o espetáculo. Desde sempre viveu uma espécie de laboratório ininterrupto e involuntário. Colheu referências em casa, na rua, com antigas e novatas. Mediu, comparou, analisou, criticou. Guardar exemplos e auferir resultados. Modelo primeiro? Sua própria mãe – e aí começa o problema… Se ela tiver certa lucidez dirá a verdade: improvisou o tempo inteiro, pois você nasceu sem informar quem, como ou o que seria; aplicou padrões e nem eles foram seguros – a mesma ação dava reações diferentes, quando não opostas, a cada instante; desejava repetir, ela mesma, a própria mãe e negá-la ao mesmo tempo. E sua função atual seria atrapalhar.

Agora ela se tornara avó.

É quando darei algumas boas e outras más notícias. Primeiro, para a plateia que importa, durante muitos anos você será estrela absoluta. Desde quando abrir a cortina, destinados estarão olhando fascinados para os seus olhos, admirados com seus gestos, loucos por sua voz. Tudo mais será secundário. Eventuais tropeços serão relevados desde que, na alma, haja um plano maior. Ainda assim farão de tudo para testar ao limite sua capacidade de se manter no papel sem abdicar da pessoa que há por trás – às vezes desiludida ou em apuros. Esteja pronta para aplausos e vaias; risos e lágrimas; solidão. Quando nada fizer sentido, confie apenas no diretor de casting: só você daria conta do seu destino.

Como sei?

Ah, Vanessa, porque eu fico aqui na coxia cumprindo dupla função: por um lado, pronto para acudir no que for preciso e consciente de que há limites os quais devo respeitar. Por outro, ofertando meu melhor sorriso para quando seu olhar se volte em busca de aprovação, fiança ou força. Seu nome centraliza o painel luminoso. Minha, a tarefa de abrir cada salva de palmas. Amo!

5 comentários em “Salva de palmas”

  1. Anabela Rute Kohlmann Ferrarini

    Sou mãe, sou avó. Ser mãe recém-nascida é um espetáculo muito louco! Assim como a Vanessa, tive a sorte de ter ao meu lado um amor que era, ao mesmo tempo, plateia e contrarregra. Quando nasci avó, me vi coadjuvante, papel que aceito com prazer. Obrigada por mais este belo texto, Rubem!

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