Piadas vencidas – 20 anos*

Todos os brasileiros conhecem o traço gaúcho da bipolaridade. Somos sempre contra ou a favor. Estamos cá ou lá. Amigo ou inimigo. Colorado ou gremista. E, como o futebol permeia as relações numa esfera de paixão, vermelhos e tricolores provocam-se mutuamente do cafezinho matinal ao último chope noturno, quase todos os dias. Porém, até mesmo esta tradicional rivalidade precisa passar por reciclagens de vez em quando, sob pena de perder a graça. O meu Inter, ao conquistar a Copa Libertadores da América de 2006, prestou uma bela contribuição para este intento. A partir de agora, para os gremistas está desatualizada uma série de piadas prontas, às quais bastava trocar a data e o campeonato.

Por exemplo: comparar a equipe do Internacional com a cerveja Polar, que ninguém conhece porque vende só no Rio Grande do Sul – numa alusão às dezenas de campeonatos estaduais do Colorado. Finalmente, esta piada expirou a validade. Ela já estava morna e sem gás. Outra piadinha que não faz mais sentido é a do comunicado da Operação Golfinho, usada para dizer que nós morremos outra vez na praia. (Aliás, aqui cabe um parêntese: o técnico Abel Braga, com este título sul-americano, quebrou a escrita de ser o mais famoso treinador de vice-campeões!)

Agora, a mais emblemática piada sobre o Inter morreu de morte matada – e com trinta anos de atraso. Ela dizia que precisávamos trocar o nome da equipe para Nacional, pois não havia nenhuma taça verdadeiramente internacional em nossa sala de troféus. Demos cabo desta gracinha num embate glorioso, uma vez que competíamos contra o São Paulo, tricampeão da Copa Libertadores da América e do Mundial de Clubes. Mais: detentor de ambos os títulos no momento. Ainda, de inhapa, também tricolor! Melhor do que isso, só se vencermos o Barcelona (do Ronaldinho Gaúcho) em dezembro no Japão.

Voltando ao tema, o título ora conquistado pelo Colorado gaúcho é mais do que um divisor de águas em sua própria história. É a tardia equiparação ao rival porto-alegrense, orgulhoso que é de suas conquistas históricas, com toda a razão. Representa, também, o fim de um sem-número de humilhações impostas por tricolores aos jovens torcedores vermelhos, pois muitos não eram nascidos no período de feitos relevantes dos anos 1970 e 80. Aos gremistas, depois de passada esta pequena trégua dos “merecidos parabéns”, restará o apelo à criatividade no momento de passar uma nova flauta. As piadas que citei perderam o sentido e apodrecerão no esquecimento. Diferente da nossa lembrança impiedosa das passagens do rival pela segunda divisão nacional.

Colorados de todo o mundo, vamos aproveitar o momento! Poucas horas depois do feito, tudo virou História. Por obra e graça da Fada Madrinha, eu estava lá no Estádio Beira-Rio, testemunhando a glória do desporto nacional!

*Crônica publicada na Zero hora após a conquista da primeira Copa Libertadores do Sport Club Internaciona, em agosto de 2006

1 comentário em “Piadas vencidas – 20 anos*”

  1. Se prometi gre-nal, não pode faltar o coirmão. Ao lado da minha crônica, havia a resposta tricolor:
    Ronaldinho é nosso profeta
    Airton Gontow
    Ah! Menino Ronaldinho! Eu bem que devia ter adivinhado depois de acompanhar tuas travessuras desde guri nos gramados suplementares do Olímpico que tu não foste um ingrato ao trocar o campo da tua infância pelos gramados europeus! (…) Poderia, sim, ter imaginado que tu tinhas visto os guris colorados em formação e percebido que lá se projetava um grande time e que tu tinhas de ir rapidamente para a Europa, para se tornar campeão europeu e poder – com tua magia, Ronaldinho! – impedir o Inter de ganhar o Mundial no Japão!
    Ah! Guri Ronaldinho! Como fui tolo ao te criticar tanto durante a recente Copa do Mundo. Como não notei que estavas te poupando, que estavas sabiamente guardando tuas preciosas energias para o que realmente importa: impedir o Inter de ser campeão do mundo em Yokohama!
    (…)
    Não deixa o mundo ficar vermelho, Ronaldinho! Se eles querem o mundo vermelho, que se mudem para Marte! A Terra, como disse Yuri Gagarin, é azul. Ou melhor, é azul, branca e preta – como já provamos sob o comando de Renato Gaúcho, De Leon e Mário Sérgio.
    Finalmente, entendo tudo. Tinha de ser assim. Como tu previste. Como planejaste, profeta Ronaldinho! Agora, a bola é tua. É a tua vez, gremista Ronaldinho! A vez de acabar com eles e de voltar para os braços carinhosos da torcida gremista. (…)
    No Japão, Ronaldinho Gaúcho, jogai por nós!

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