Amar era, amar ainda é?

Coluna do Metro Porto Alegre em 12.06.2013

AMAR ERA, AMAR AINDA É?

Quando eu conheci o amor, amar era saber o nome e o sobrenome dela. Talvez até o nome da mãe, do pai e dos irmãos. Era transformar seu endereço em passagem para todos os destinos, fazer amigos na turma dela, aparecer nos sábados à tarde só para jogar um vôlei. Amar era somar cinco ou seis motivos para andar à sua volta quando, na verdade, o motivo era um só.

Amar era trocar correspondência. Receber dela a letra de Leãozinho, do Caetano, e responder com versos de Meu Bem Querer, do Djavan. Aliás, amar era ter uma música só para os dois, tipo par de telenovela. Escutar o mesmo tema uma tarde inteira, como se a poesia pudesse dar conta do passado e do futuro. Amar era ser fiel: a mesma música jamais serviria de trilha para outro amor.

Amar era descobrir encantos possíveis, pois nem todos os dotes nos eram franqueados. Decorar o formato dos dedos dos pés, perder-se nas penugens da nuca, trilhar cada curva das orelhas, mergulhar nos olhos, curtir todos os segundos de um beijo. Brincar muito: contar os sinais da pele com os dedos, fazer cócegas, dar sustos.

Amar era viver no eterno sobressalto da insegurança. Desconfiar do cochicho da amiga, principalmente quando seguido de sorrisos maliciosos. Temer a aproximação dos meninos mais velhos, morrer de paixão sem jamais declarar-se. Negar até a morte o que estava escrito na testa. Amar era tentar conhecer o outro no exato momento em que a própria anatomia se mostrava uma estranha.

Amar, para os meninos, era desejar o corpo e barganhar com a alma. Para as meninas, ao contrário, era desejar a alma e negociar com o corpo. Daí o sofrimento dos homens: desde os primeiros ensaios do que era amar, as trocas estavam flagrantemente desequilibradas. Amar era chorar o desamor nos ombros dos amigos. Amigos que, em alguns casos, morriam de amor em segredo.

Amar era, também, odiar. Odiar, antes de tudo, a própria inexperiência. Odiar o deboche dos outros, as dúvidas ruminantes, as recusas, os enganos. Odiar o ciúme, efeito colateral das primeiras paixões. Sentir um ódio enorme por continuar amando quando jurávamos nunca mais amar.

Por fim, quando eu descobri o amor, amar era olhar com total desdém para as figuras Amar é…, criadas pela neo-zelandesa Kim Grove Casali, sucesso absoluto entre as meninas entre 1970 e 1980. Mesmo assim, comprar para elas lembranças com a adocicada mensagem decorada com infantilizados bonequinhos nus. Com isso, amar era aprender a fazer concessões, driblar nossa natureza de ogro, desde que ajudasse a conquistar a amada.

 

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