Xeque em cheque

Um dos meus primeiros contatos com a IA data do final dos anos 1970. Meu pai, por gostar de xadrez e ter perdido a rotina que um dia tivera de embates com amigos, comprou um computador dedicado: xadrez do homem versus a máquina. Passava horas entretido. Às vezes, porém, tinha momentos de cólera: o computador “esquecia” de uma peça, propondo uma jogada impossível. Pior: não tinha comando de correção. Ou seja, a partida restava inviabilizada.

A promessa, à época, era rivalizar com um programa alimentado por diversas estratégias vencedoras obtidas em compilações de partidas de grandes mestres. E havia uma diferença enorme de tempo de decisão: o processamento já era rápido. O pai perdia e ganhava – quem sabe até uma esperteza dos fabricantes fosse ser “menos bom” do que o possível, para não perder o parceiro. O problema era a eventual cegueira. Os melhores programas digladiavam com os mestres.

Corta para hoje mesmo.

Desde o início do ano, proponho diálogos com a IA para verificação de qualidade em minha criação, para investigação de caminhos e para a composição de textos não criativos: resumos, planos, organizações. Sim, um organizador de ideias – e a IA é boa nisso. Ainda assim, jamais tiro os olhos do tabuleiro. Com uma frequência considerável, meu interlocutor tropeça em pontos cegos, não nota uma intenção ou imagina peças que não existem ali. O que resulta na criação de referências imprecisas.

A maior vantagem da IA é o imediato recálculo de rotas quando informo a falha. Se lá no xadrez do pai a partida estragava-se, hoje a interação cria duas oportunidades: um enxadrista médio como eu contribui no aperfeiçoamento do sistema, e o equívoco pode denunciar algo que, mesmo presente, restou invisível – terá no erro minha digital conjunta? E o processamento ficou ainda mais rápido: em segundos, referências sobre-humanas compõem argumentos.

Quem diria que os palavrões proferidos contra um jogo de xadrez eletrônico no século passado seriam um importante alerta para iluminar as relações entre a IA e as pessoas? Nem todo conhecimento acumulado por enormes bancos de dados é capaz de substituir o olhar humano. Talvez exatamente porque nosso raciocínio é escorregadio, multifocal e criativo. Se coubesse um conselho nos estertores da lauda, seja: use a IA em um campo conhecido. Pior do que o oponente sumir com uma peça de seu jogo, só você ser incapaz de notar que aconteceu.

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