História pretérita: um dia, ainda criança, Ivan perguntou se eu chorava. Não encontrara uma só cena de o pai em lágrimas em suas memórias. Há época, depois de um “é claro que sim”, fiquei preocupado – estaria reproduzindo para ele o estereótipo de homem que não chora? Afinal, demorei muito para ver meu pai chorar – eu já devia ser adulto, ele velho.
História recente: sábado passado estive no duplo lançamento de Celso Gutfreind. Homem no lixo – poemas, e A devolução dos bichos – crônicas, com minha participação na apresentação, seleção e organização do livro. Por considerar a contribuição importante, o autor escalou-me para assinar junto. Uma honra. Antes, tivemos um belo sarau e, nele, inaugurei uma nova fase: agora, choro em público…
Depois dos meados dos trinta, vinte, 25 anos mudam muita coisa na gente. Surgem cabelos brancos, marcas de expressão, algum cansaço e um tantinho a mais de experiência. Também afrouxa o choro. Teria sido isso que aconteceu com o seu Rubinho? O tempo nos torna emotivos? Ou baixa nossa resistência em assumir as emoções com mais autenticidade? Marco as duas alternativas.
Se você está curioso sobre o fato de ter chorado em público, digo que não estava nos planos. Quando escolhi o texto O quarto desarrumado, na leitura prévia, chorei. Concluí: já está chorado, isso será vacina. A crônica trata de filhos adultos deixando a casa dos pais para morar longe. E a Clara recém completou 26, uns oito lá em São Paulo. E a Agatha está chegando nos três, mas não dou spoiler sobre a resolução do texto – as lágrimas chegam no último parágrafo.
Eis a mágica da crônica: o bom autor fala de si e, quando lemos, ele está falando de nós. Já não era mais a filha do Celso, eram as minhas filhas, nossa história, proximidades e distâncias. Foi quando a leitura se tornou impossível e passei adiante o livro: outro precisaria terminar. Estou acostumado. Na mesa da Santa Sede isso acontece com frequência e, sempre, um leitor socorre. Se é para chorar, choremos juntos.


Como eu te entendo…
Obrigada por terminar vários textos meus.
Lágrimas agradecidas!
Ah, Anne! Estamos umas manteigas derretidas! (expressão antiguinha, né?)
Beijos
Tb te entendo! Me engasgo na maioria das vezes, segurando o choro. Mostra q estamos vivendo o q lemos e não apenas consumindo palavras.
Perfeito, Zélia. Escrevemos com a alma!
Obrigado, beijos
Eu sempre chorei em público ou no privado, quando a emoção vem, tento segurar, mas se não consigo, deixa vazar! Se vaza, torna público o sentimento genuíno e isso não quer dizer fraqueza, pelo contrário, nos mostra fortes e autênticos de alma aberta para quem quiser nos entender um pouco mais.
O bom é também rirmos muito em público e sozinhos, Sandra! Beijos!
Como tu disseste, Rubem, a marca da boa crônica é nos reconhecermos nas experiências do autor, e se essas experiências nos falam mais de perto, aquele embargo na voz é o melhor elogio que podemos dar.
Exato! Essa é a grade obra do cronista: as pontes bem feitas. Garantia de riso e de choro! Abração!