Sem escada não se troca a lâmpada

Sem escada não se troca a lâmpada

Rubem Penz

Para James Michael Tyler, o inesquecível Gunther

Não existe cortada sem levantador, cabeceio sem cruzamento nem comédia sem personagem escada. Festeja-se o ponto com a câmera de olho em quem colocou a bola no chão da quadra adversária, o gol acompanhando a corrida de quem fez a bola cruzar a linha e balançar as redes e, claro, permanecemos vidrados em quem encerra a cena e arranca as gargalhadas do público – isso é absolutamente normal. Como também é natural os salários e cachês dos finalizadores serem mais elevados. Porém, técnicos, diretores e roteiristas sabem a importância do “último passe” para que o desfecho aconteça.

Um dos maiores êxitos da história das séries de sitcom, Friends, dentre os diversos motivos para o sucesso, apresentava um rodízio entre os seis protagonistas para ocuparem a posição de escada para o colega. Essa talvez seja a principal diferença implementada por David Crane e Marta Kauffman com relação a outro grande sucesso – Seinfeld – no qual todos os personagens se revezavam na posição de escada para o protagonista. Também a chave para percorrer seus dez anos com muita agilidade. Multiplicou pontos e golos com seis atacantes pifados por seis colegas em rotação ininterrupta. E a graça se elevou em proporção geométrica.

O que não significa ter existido no seriado personagens escalados unicamente para servirem de escada. Participações especiais em um só episódio, em aparições espaçadas ou em temporadas inteiras (com direito a eventuais retornos) surgiram para cumprir essa função. E, dentre todos, o mais amado e constante foi, sem qualquer dúvida, o Gunther. Para quem não sabe, ele era o gerente do Central Perk – ponto de encontro dos amigos fora dos apartamentos da Mônica e do Chandler. O ator James Michael Tyler deu vida ao eterno e platônico apaixonado por Rachel capaz de, em gestos contidos e poucas falas, temperar com muito talento diversas situações, tornando-as hilárias.

Estranhamente, é como se eu perdesse um dos tantos amigos que fiz pela boemia

No minimalismo de um recolher de xícara durante a cena, com apenas uma troca de olhares para dar o tempo da piada, fazia o chamado no esporte de último passe – no caso deste exemplo citado, quase um corta-luz. Por isso, ninguém tirava os olhos daquele rapaz de cabelo descolorido, mesmo quando sua presença tinha o aparente destaque de um figurante ao fundo, passando o pano no balcão. Não dá para pensar na cafeteria sem ele completando o time em cena.

James Michael “Gunther” Tyler faleceu no último domingo vitimado pelo câncer de próstata aos 59 anos, deixando milhões de fãs – iguais a mim – muito tristes. Eu, que sofro de síndrome de Chandler (a compulsão irrefreável pela graça imediata e nem sempre feliz), não consigo pensar em nada que faça alguém sorrir com essa notícia. Estranhamente, é como se eu perdesse um dos tantos amigos que fiz pela boemia, eles atrás do balcão às vezes só tirando o chope, às vezes ouvindo confissões, sem os quais a vida da gente fica muito pobre. RIP Gunther.

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