Ai, que vergonha...

Sobre prazeres sórdidos

“Democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim”

Millôr Fernandes

Obter certo gozo com algo do que deveria sobrevir apenas vergonha não chega a ser raro. Aliás, o que nunca nos falta é culpa numa sociedade judaico-cristã , mas, ainda assim – ou exatamente por isso –, há pecados às pencas. Nada permitir é o fermento mais efetivo para a busca do prazer. Agora, o que acontece quando você faz alguma coisa flagrantemente condenável e, súbito, aparece uma satisfação fora de lugar? Corre para o confessionário? Volta ao psicanalista? Pede mais uma para o garçom? Escreve uma crônica? Todas as alternativas estão corretas? Marque o X.

O fato é que aconteceu comigo. Feio, muito feio. Porém, revelador. Explico:

Durante meses venho administrando dois grupos em aplicativo de conversas para a mesma turma escrever um só livro. O primeiro é igual aos da Santa Sede: todos escrevem e leem. Dele, o que se espera é a interatividade respeitosa e cordial. E, como já estão acostumados com grupos temáticos, nem é preciso fazer grandes alertas para prevenir mensagens fora de contexto – todos evitam por livre consciência. Digressões? Elas tanto podem como devem aparecer – mesmo no computador, simulamos a mesa do bar. No segundo grupo, só o administrador (euzinho) pode postar, permitindo aos demais apenas a leitura. Nele, descobri o perigo.

Falar sozinho é uma droga pesada, viciante e com um retorno de prazer instantâneo.

Depois de postar uma notícia/tema, pela primeira vez deu vontade de comentá-la. Depois de comentar, a coceira rumou para o gracejo. Nele, um pouco de provocação. Enfim, ao notar que não teria contraditório, nasceu uma impressão de poder ilimitado e, com ela, o prazer sujo e vil dos ditadores. Gostar de algo odiável foi bem desconcertante, acredite. Corri para o grupo aberto e me penitenciei, sabe-se lá se em busca de absolvição ou por pura vergonha. Para piorar, pensei: a diferença de agora para possíveis outras vezes foi apenas o dar-se conta. Feio, como disse, muito feio.

Recordo, então, de muitos falsos democratas que conheço. Uns pavões entoando a palavra liberdade e, ao serem contrariados – por pessoas, por circunstâncias e até por fatos –, rápidos para desejar o discurso único. Desde que seja o seu, é claro. Falar sozinho é uma droga pesada, viciante e com um retorno de prazer instantâneo. Talvez por isso este desmedido apego ao poder absoluto de parte de quem experimentou o poder relativo. Sem dificuldade surgiram uns quantos nomes aqui comigo para se encaixarem no perfil. Você pode intuir quais são. Dou pistas: costumam ocupar as letras garrafais dos periódicos mundo afora.

3 comentários em “Sobre prazeres sórdidos”

  1. Não estou falando com você. 😀

    “ACORDA PARA A VIDA!”

    Obedeci, acordei e fui até lá. Prova cabal de que Deus existe, e que é bom. Talvez nem tanto comigo quanto mereço. Se pudesse escolher, dormiria mais, acordaria linda, com 64 anos (tenho 46) e tempo livre. Como não há trapaças grátis, me pus a caminho dos meus próximos dezoito anos, ler a palavra ofertada, em resposta ao meu ‘remeto a Deus’, dado ao mestre, recém demitido.

    “Dê a outra face e faça-nos rir.”

    Desobediente apenas em parte, tomei laranjas do cesto de frutas e fiz malabares. Não sei se viu, leu, se ofendeu, mas qualquer um, por mais que despreze, conhece a história por trás desta história: Jesus teria sorrido, Maria teria gostado. Quero acreditar que entre tantos dos seus hobbies, Deus faz tortas com pedaços das minhas bochechas, para dar aos cachorros que vão para o céu, pois alguém precisa alimentá-los. Segue os mesmos princípios, não há quem o corrija!
    Torro horas que não tenho mapeando fórmulas secretas, o que move o mundo, o que move as pessoas. Há um manto de sabedoria envolvendo tudo, senão vejamos a resposta de um dos nossos clientes:

    “O que move o mundo é o movimento de rotação, o que move as pessoas é a motivação”.

    Fora isso, tenho quase certeza, ainda são sete ou doze números sagrados aplicados aqui e ali, além do mapeamento dos resultados ao longo dos séculos, a que, por óbvio, não tenho acesso já que muito se perdeu. Mas nem tudo! Foi de estudar um pouco que aprendi que os mapas da antiguidade eram considerados com um grau de precisão parecido com esta conta: dois vezes dois são sete e meio, menos três e alguma coisa. Em outras palavras:

    “Acaso algum dia se sinta perdido, tome outro rumo.”

    Volto a negociar a preservação do meu nome. Ofereço uma das faces e, em troca da outra, uma coxa. Mas não leve agora! Venha buscar mais tarde, quando estiver mais bronzeada. Evito reclamar do bom tempo, da sobra de tempo e etc., mas se alguém puder providenciar o pôr do sol mais cedo, agradeço. Ou apenas caçoo. Reconheça-se que não há atalhos para as voltas que o mundo dá.

    “Ainda que te doa, em alguma circunstância, se sentir pouco importante, evite tentar interceder.”

    Quero passar de nível, romper com o status quo, mas ainda sinto barreiras invisíveis. Há comandantes aos quais sou demasiado subordinada, aos quais dou demasiado poder. Espiculo que talvez, ou exatamente por isso, não aceitem, com alguma humildade ou por puro preconceito, que ditar o ritmo do meu progresso, esse é o meu trabalho – a exoneração da responsabilidade me levaria, fatalmente, à desmoralização.

      1. Rubem Penz

        Estranhamente, ou não (pois nos conhecemos faz muito tempo), esperava um comentário seu, caro Jorge! Obrigado!

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