Assuntos não faltam – até coisas assustadoras andaram acontecendo comigo –, mas resolvi fazer uma crônica meio Metro. Como assim? Explico: quando assinava a coluna “Crônicas de Botequim” no Metro Jornal Porto Alegre, mesmo com absoluta liberdade de pauta, havia um pedido tácito de falar sobre a cidade. A força do periódico era o que acontecia nas ruas. E as ruas, mais especificamente a Rua Regente, é a pauta.
Todos já sabem do Bourbon Shopping Carlos Gomes, né? Este novo espaço de comércio e serviços abriu suas portas a uma quadra e pouco da casa da minha família. A mãe está muito feliz – seu maior prazer é suprir as necessidades básicas a pé, mantendo sua saúde de octogenária faceira. Eu também, pois o outro Zaffari perto impunha a ela o trilhar por calçadas não muito cuidadas, apesar do preço do metro quadrado do bairro.
Como precisa acontecer nestes casos, houve mudanças nas vias de acesso. Alteraram-se preferenciais, quadras vicinais se tornaram mãos únicas e em alguns pontos já não se pode estacionar… Essas coisas. O número de carros circulando, que não era baixo, aumentou. E, no meio de tudo, felizmente, colocaram um semáforo para pedestres. Falei para a mãe: sempresempresempre atravesse a Regente na sinaleira.
Sábado passado, recebendo a visita da neta (quem importa), ela me incumbiu de ir comprar um cacho de bananas, mas pediu que não fosse ao armazém. Não se conformava com minha pouca curiosidade em visitar o shopping novo. Lá fui eu pelo caminho seguro: descer a Rua Pedro Ivo e atravessar onde eu havia pedido a ela – no semáforo de pedestres. Todavia, de tudo o que foi ajustado, descobri que (in)justo ele ainda não está em funcionamento.
Ah, EPTC… Custa muito proteger os mais frágeis no sistema de transporte e circulação? Nem digo primeiro, ainda que considere a preferência correta. Bastaria ter ocorrido simultaneamente. Impor a loteria de uma pausa no fluxo, ou o consentimento dos motoristas cada vez mais raro diante de uma faixa de pedestres, é muito descaso, para não dizer insensatez. Quando um idoso for atropelado, uma criança, alguém com necessidades especiais, será demasiado tarde.
O Metro não mais circula na cidade. Este humilde cronista, sim. Espero que a crônica também, e encontre os caminhos até chegar aos (ir)responsáveis. Sempresempresempre.


Perfeito, Rubem! Nossa cidade está ficando cada vez mais incaminhável!
Na medida, mestre!
Abraço
Obrigado, Tiago! E vamos atravessar a incompetência e o descaso! Abraço
Disse tudo
Obrigado, Silvia!
“Incaminhável” é um achado, Mercedes! Muito obrigado!
Cidadania é Tudo!!! Vamos Lá, Circular Essa Devida Preocupação Coletiva!
Certíssimo, Bill! Abração
Caro mestre: consideração ao pedestre cidadão de fato, como mostra sua 1/2 crônica, não é uma prioridade. Importante são os terraços floridos, os amplos e requintados espaços, mais um templo de consumo erguido na cidade. Além do que o pobre pedestre, quando quer atravessar numa faixa sinalizada, envelhece alguns longos minutos até que o sinal feche para os automóveis e o paciencioso andante possa cruzar a rua. Mas sempre desconfiando de algum motorista ou motociclista imprudente que não dê a mínima para sinalização. “Morreu na contramão atrapalhando o tráfego”. Abraço. Cuidem-se.
Roberto, sim, sou humilde. Pedir um tempo ínfimo espaço de tempo (depois da espera) para cruzar a via é pouco. Ainda assim, ficarei mais tranquilo ao ligarem. A mãe estará mais segura. Pouco na ordem do poder, o suficiente diante da vida e morte. Muito obrigado! Abração
Em Aracaju, mesma coisa, Rubem. Parabéns pelo puxão de orelhas em forma de uma bela crônica. Grande abraço, eterno mestre.
P.S. De quebra, despertou a curiosidade dos seus leitores a respeito das “coisas assustadoras”.
Muito assustadoras, Ataíde. A ponto de a Vanessa perguntar no meio “quanto vai custar isso?” e eu responder “o que for…” Abração!