Faça um pequeno exercício de memória e recorde dessa expressão: se passar. Ela era usada com frequência pelas mulheres quando algum homem se comportava como um “abusado”, outra palavra corriqueira. Ou seja, quando um homem avançava o sinal, dava uma de folgado ou de engraçadinho. Toda mulher sabia dos limites que não deveriam ser ultrapassados. E vinha o alerta: você – ou ele – estaria se passando.
Homens também sabiam disso. Porém, os impetuosos viviam testando os limites das mulheres, até porque tais fronteiras variavam de uma para outra conforme a educação, os hábitos, a situação, o recato – ou a ausência dele. Naquele tempo, espero não incorrer em erro, o assédio vinha só depois de o alerta ser ignorado. Caso parasse, ainda não era caso de polícia. No máximo, caso de assuntos: cuidado – se vacilar, aquele folgado se estica.
O que mudou, e mudou para melhor? A presença da lei.
Depois de ficarem claros os limites e nominados os abusos e importunações sexuais, não cabe mais à mulher definir quando alguém esteja se passando: está definido pela justiça. E a mudança é sutil na palavra e gigante no significado – não se trata mais de ser abusado, e sim de ser abusador. Não se é mais engraçadinho, pois nada disso tem graça. Não é mais folga, e sim o contrário: contenção.
Quando a sociedade reconhece o que pode e o que não pode, atenua o poder de quem imagina ser ele ilimitado. Isso não castra os jogos de sedução – coloca-os em parâmetros seguros e com fronteiras claras. Assim, é algo que beneficia ambas as partes. Avanços consensuais e relações harmônicas e equilibradas. Poderes no lugar de poder.
Quanto menos existirem homens se passando, mais essa expressão ficará no passado. E, passo a passo, deixaremos de dar a impressão de que o corpo da mulher está disponível. Quer passar a mão em algo? Que tal o código penal?

