Número 368

AS QUATRO ESTAÇÕES

Mãe é primavera. Antes mesmo de ter filhos, ainda em botão, já é maternal. Perceba uma menina brincando, veja ali o quanto há de promessa. Melhor: persiga as ações cotidianas no mundo do faz de conta. Desde que nasceu minha filha, passei a compreender melhor tudo o que envolve o zelo por outra vida, iniciado quase em bebê, na fantasia. Mais tarde, jovens, mulheres reconhecem e exercitam o cio; planejam, acalentam, escolhem. Florescem e frutificam no tempo exato. Colorem e perfumam a família. Prometem e entregam a nós, homens, eternidade possível. Terá morrido incompleto aquele que não conviveu com a primavera de uma mulher.

Mãe também é verão. É calor, brincadeira, banho de água fresca. Mãe é melancia gelada, araçá colhido do pé, sumo e grão. Brisa do mar, orvalho da madrugada. Um sol enorme e cálido fornecendo luz, alimento e segurança; mãos dadas no final da tarde. Para um filho pequeno, o sorriso da mãe ofusca toda a concorrência – nada mais importa, nada falta, tudo é alegria. Deslizamos pelo corpo da mãe como quem desce em uma duna, rolando de contentamento, vibrando de prazer. Adormecemos em seus braços gozando conforto de rede. Amanhecemos com seu olhar.

Necessariamente, mãe é outono: educação, limites, cobranças. Ela deseja filhos fortes e compenetrados para enfrentar o rigor das estações mais severas. Mostra, então, seu lado árido. Toma para si a tarefa de ensinar que nesta vida nem tudo serão flores, nem sempre haverá cor, fartura e conforto. Desnuda a copa das árvores e, com isso, oferece novos horizontes. Entretanto, diligente, recolhe as folhas secas espalhadas pelo chão, restos de rusgas e repreensões. Livra-se (livra-nos?) das mágoas. Captura outras formas de beleza e guarda-se para uma longa espera.

Mãe, cedo ou tarde, torna-se inverno. Então será xale sobre os ombros, cobertas pesadas, neve nos cabelos. Mãe invernal é distância ditada por visitas espaçadas. Chá preto com limão e bolo de chocolate aos domingos. Foto com o branco do vestido esmaecido, emoldurado na parede. Mãe, em uma certa altura da vida, é mais recordação do que presença; mais conselho do que colo; mais lágrimas e nenhum consolo. É solidão. Porém, nem mesmo o silêncio mal disfarçado pelo vento e pela chuva transforma a mãe em desesperança. Sábia, intui o final do inverno. Ele que é apenas uma entre suas vastas estações. Há de cumprir seu ciclo.

Mãe almeja ser avó. Avó, outra vez será primavera: promessa e regozijo. Verde novo, flor e fruto colhido em pé de moleque. Chá de fraldas, sapatinhos de tricot. Avó também será verão, correria solta de netos para ser acompanhada apenas com o olhar – sustos ao tombarem. Calor em cada sorriso, beijo e abraço. A avó será outono quando houver a suspeita de menor negligência para com seus netos, suas caprichosas flores na maturidade. E o inverno de sua velhice será tão mais ameno, quanto mais pequenos sóis orbitarem ao redor de si. Avó é mãe em quatro simultâneas estações. É tudo, mas nunca o bastante. Mas, em se tratando de maternidade, quando e quanto bastante será?

2 comentários em “Número 368”

  1. Caríssimo Rubem,obrigada por esta crônica,maravilhoso presente! O tema foi abordado pelo teu coração sensível com muita originalidade.E com muito carinho.
    Pós-matrimônio também está incrível. Não sei como conheces tão a fundo o outono e o inverno se apenas chegaste ao verão. Ainda sobre esta crônica: e o que me dizes das mulheres que – além de todas as tarefas que descreveste -ainda desenvolveram uma carreira profissional,com responsabilidade e competência? E não me venham falar que estas tinham quem realizasse as tarefas domésticas por elas. Empregadas nem sempre se consegue. E existem funções indelegáveis…Imaginem se o pobre homem enviuvasse mais cedo, e ainda com filhos por criar e orientar!
    Abraço afetuoso da Jussara

  2. Jussara,
    Muito grato! Sou, sim, um fã das mulheres. Elas conseguem se multiplicar e dar conta de tarefas variadas com competência e amor. Por isso sou casado com uma!!!
    Felicidades a essa mãe e avó especial,beijos,
    Rubem

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